Edição: segunda-feira, 16 de março de 2026

José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

A Covid como o gatilho de mudanças sociais


José Luiz Alquéres, vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB)


Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial da Saúde anunciou que o mundo enfrentava uma pandemia que ficaria conhecida como Covid-19, oriunda da China e com consequências graves muitas vezes letais para a população. O estado de alerta perdurou até 5 de maio de 2023, por pouco mais de três anos. Nesse período, assistiu-se não apenas a um grande esforço global para debelar a doença, mas também a uma profunda alteração no panorama sociocultural, político e econômico do mundo.

Em 2020 predominava a ideia de cadeias globais de produção, crescente interdependência entre países e expansão contínua do comércio internacional, acompanhada de uma crescente preocupação com os impactos ambientais do modelo econômico vigente. A pandemia acabou funcionando como um poderoso catalisador de mudanças que já se insinuavam.

Durante a crise sanitária formou-se uma divisão clara na interpretação do fenômeno. Para alguns, tratava-se de um episódio passageiro e, superada a pandemia, a vida voltaria ao normal. Para outros, representava um verdadeiro ponto de inflexão histórico, capaz de alterar de forma duradoura os modos de viver, trabalhar e produzir. Seis anos depois, parece evidente que esta segunda interpretação se aproximou mais da realidade. O mundo pós-Covid é diferente embora ainda não esteja plenamente assimilado que esse novo cenário exige atitudes mais proativas de governos e sociedades.

Uma das primeiras consequências foi de natureza política. A pandemia colocou à prova lideranças nacionais e a capacidade de resposta dos Estados. Em muitos casos, países cujos dirigentes adotaram medidas baseadas em evidências científicas e comunicação clara com a população obtiveram melhores resultados. Chamou atenção o desempenho de alguns governos liderados por mulheres, como o da Nova Zelândia, que conseguiu controlar a crise com grande eficiência.

Em contraste, governos que minimizaram o problema ou adotaram posturas negacionistas enfrentaram maiores dificuldades e, em vários casos, sofreram desgaste político nas eleições seguintes. Ainda assim, a reação política não foi acompanhada, em todos os lugares, por um fortalecimento duradouro das políticas de prevenção. Em alguns países observou-se inclusive uma queda na confiança nas campanhas de vacinação, contribuindo para o reaparecimento de doenças consideradas praticamente erradicadas. No campo econômico, a pandemia revelou fragilidades importantes da globalização produtiva. Tornou-se evidente a dependência de muitos países em relação à importação de itens básicos frequentemente produzidos na China como máscaras, seringas e outros materiais essenciais.

Esse diagnóstico levou à reavaliação das cadeias globais de produção e ao fortalecimento da ideia de maior autonomia nacional em setores considerados estratégicos. A lógica estendeu-se também a recursos naturais, energia e alimentos, que passaram a ser vistos sob uma perspectiva mais geopolítica. Uma consequência desse movimento é o aumento de tensões e disputas regionais em torno do controle de recursos essenciais. O resultado tende a ser um mundo de economias relativamente mais fechadas. A experiência histórica, contudo, mostra que o comércio internacional favorece também a aproximação cultural e o alinhamento de interesses entre os países.

As consequências sociais da pandemia também foram significativas, especialmente nos modos de trabalhar. O trabalho remoto tornou-se muito mais comum e alterou padrões de deslocamento nas grandes cidades. Em muitas organizações, a sexta-feira e por vezes também a segunda-feira passou a ser dia de trabalho em casa. O avanço das tecnologias de comunicação permitiu que muitas atividades administrativas e de gestão fossem realizadas a partir de computadores pessoais ou mesmo de telefones celulares, frequentemente fora das sedes das empresas.

O ponto central é que o mundo passou por uma transformação profunda em um intervalo de tempo muito curto. Poucos imaginariam, seis anos atrás, mudanças dessa magnitude ocorrendo com tanta rapidez. Mais do que uma crise sanitária, a Covid-19 funcionou como um gatilho histórico, acelerando tendências já existentes e inaugurando outras que ainda estão em processo de consolidação.

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