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José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

A confortável arte de diagnosticar e a urgência de agir


O brasileiro tornou-se, ao longo do tempo, um especialista em diagnosticar problemas e um amador crônico quando se trata de resolvê-los. Em rodas domésticas, mesas de bar, na Academia e círculos sociais, discute-se o país com intensidade quase profissional. O resultado, porém, raramente ultrapassa o campo da retórica. Nessas conversas, quase sempre marcadas por forte viés ideológico, prevalece uma conclusão recorrente: a culpa é de instâncias superiores. Governos, elites ou estruturas abstratas de poder são responsabilizados de forma praticamente exclusiva pelas disfunções sociais. À população resta o papel de espectadora crítica, indignada, mas inerte.

Não se trata de um acaso. Essa mentalidade encontra raízes em uma tradição histórica centralizadora e, não raro, em uma cultura que naturaliza a transferência de responsabilidade. Quando não se culpa o Estado, culpa-se o destino ou, em versões mais folclóricas, “São Pedro”, responsável até hoje por chuvas que todos sabem previsíveis, mas poucos se dispõem a enfrentar com planejamento. O padrão se repete: exaustão no diagnóstico, escassez de ação. Discute-se com eloquência, mas age-se com parcimônia. E essa escolha sim, escolha não é neutra. Ela é particularmente confortável para segmentos sociais que, apesar das queixas, ainda vivem em condições suportáveis. Para esses, o debate substitui a ação sem maiores custos.

Enquanto isso, nas camadas mais vulneráveis, a precariedade não admite esse luxo. A ausência de segurança, a infraestrutura deficiente e os serviços precários não são abstrações são condições permanentes. E a distância entre análise e ação, nesse caso, não é intelectual: é concreta, diária e onerosa. Mas há um ponto ainda mais incômodo: ao transferir sistematicamente a responsabilidade para o topo, evita-se deliberadamente olhar para aquilo que poderia ser feito na base. Evita-se, em outras palavras, assumir qualquer parcela de responsabilidade prática.

Tomando como exemplo áreas de maior renda de uma grande cidade, como, no Rio de Janeiro, Ipanema, Leblon, Botafogo e Jardim Botânico, a degradação urbana avança. Não por falta de recursos, mas por ausência de organização local minimamente estruturada. É nesse ponto que surge uma evidência ignorada: os síndicos de edifícios formam uma das poucas estruturas de gestão urbana já existentes ainda que confinadas aos limites privados. Apenas em Ipanema, são cerca de 2.500 prédios, ou seja, 2.500 síndicos habituados a administrar recursos, coordenar equipes e lidar com prestadores de serviço.

Expandir esse raio de ação não exige revolução exige decisão e um pequeno acréscimo remuneratório. Iluminação pública complementar, monitoramento integrado, manutenção de calçadas e articulação por quarteirão são medidas simples, financeiramente viáveis e de impacto imediato.

Mais do que isso: a organização progressiva desses síndicos por meio de reuniões, comitês e representação pode criar algo raro na vida urbana brasileira: uma voz coletiva com legitimidade fiscal. Afinal, quem paga IPTU paga para receber serviços. E há uma insatisfação evidente com o retorno entregue. Essa organização teria condições de fazer o que hoje quase ninguém faz: confrontar, com base concreta, políticas urbanísticas impostas de cima para baixo. Políticas que, frequentemente, desfiguram bairros inteiros, alteram suas dinâmicas culturais e transformam espaços vivos em ativos financeiros.

A transferência de potencial construtivo entre regiões, orientada muitas vezes por interesses arrecadatórios ou administrações corruptas, não é um detalhe técnico é uma intervenção profunda na vida urbana. E, como tal, deveria ser enfrentada por quem vive suas consequências. Nos bairros menos verticalizados, a solução é ainda mais simples: representantes de quadra ou quarteirão. Há pessoas com tempo, experiência e senso de responsabilidade suficientes para exercer esse papel. Falta, essencialmente, organização e disposição.

Como ensinava a urbanista Jane Jacobs, cidades não se sustentam por decretos, mas por “olhos sobre a rua” gente atenta, presente, comprometida. O que está em jogo, portanto, não é apenas um modelo de gestão urbana, mas uma escolha cultural. Permanecer no conforto do diagnóstico ou assumir o desconforto inevitável da ação.

Porque, no fim, cidades não fracassam por falta de diagnóstico. Fracassam por excesso dele e pela escassez crônica de quem esteja disposto a fazer algo a respeito.

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