COLUNISTA
José Luiz Alquéres, VP do IHGB
As características de uma sociedade podem se revelar de forma estranha a quem a observa de fora. Para os que dela participam, contudo, certos comportamentos tornam-se tão naturais que deixam de ser percebidos mesmo quando expõem padrões singulares de reação a fatos políticos, econômicos e sociais. No Brasil de 2026, alguns desses traços se destacam. O primeiro é o apreço quase ritual pelas auditorias.
O Rio de Janeiro atravessou recentemente uma sequência incomum de rupturas institucionais: renúncia e cassação do governador, afastamento do vice para o Tribunal de Contas e a prisão do presidente da Assembleia Legislativa. Diante do vácuo, assumiu o presidente do Tribunal de Justiça. Em meio ao diagnóstico de desordem, bastou a abertura de auditorias em órgãos sensíveis para produzir uma súbita sensação de normalidade.
Como se investigar fosse, por si, resolver.
A auditoria, nesse ambiente, perde a natureza de instrumento técnico e passa a operar como gesto político. Funciona como anúncio de correção, não como garantia de correção. Promete-se o escrutínio; adia-se a decisão. Repete-se o rito; posterga-se o resultado.
O mesmo padrão aparece no futebol. Treinar uma equipe exige tempo, método e consistência: leitura tática, gestão de elenco, adaptação a adversários, domínio emocional. Ainda assim, consolidou-se a cultura da troca imediata. Duas derrotas bastam para encerrar projetos de formação de um elenco que possa produzir anos de vitórias sustentáveis. No passado, havia continuidade: João Saldanha no Botafogo, Zezé Moreira no Fluminense, Fleitas Solich no Flamengo. Hoje, a instabilidade virou regra e foi internalizada: contratos privilegiam a indenização pela demissão, não o prêmio pelo desempenho. Precifica-se o fracasso; desincentiva-se a continuidade.
Em ambos os casos, prevalece o mesmo vetor: a preferência pelo alívio imediato em detrimento da construção paciente. Esse traço reaparece de forma ainda mais evidente na gestão pública. O país domina o diagnóstico. Produz análises sofisticadas, identifica culpados, elenca causas. Planejar rende dividendos simbólicos: sinaliza método, prudência, futuro. Executar, ao contrário, expõe conflitos, contraria interesses, cobra custos políticos.
É nesse ponto que surgem bloqueios frequentemente convertidos em judicialização. Normas ambíguas, interpretações extensivas e disputas processuais tornam-se instrumentos para paralisar decisões. O resultado é previsível: imobilismo.
E o imobilismo perpetua o inaceitável: déficits crônicos de saneamento, ocupações em áreas de risco, degradação urbana. Em cidades como o Rio de Janeiro, a desordem cotidiana no uso de calçadas, no trânsito, no cumprimento de regras básicas passa a ser tolerada sob o rótulo indulgente de uma “malandragem simpática”. Não é. Leveza e humor são virtudes culturais; transgressão sistemática não é traço identitário é falha de governança.
Esses exemplos apontam para um padrão: entre diagnosticar e fazer, escolhe-se, com frequência, diagnosticar; entre prometer e entregar, prefere-se prometer; entre o imediato e o duradouro, opta-se pelo imediato.
A conhecida máxima popularizada por Gérson “levar vantagem em tudo” ganhou vida própria e acabou por sintetizar, de forma simplificada e injusta, uma atitude que não define o país. O Brasil dispõe de valores mais sólidos: responsabilidade, respeito às regras, compromisso com o coletivo e visão de longo prazo.
Recolocar esses valores no centro não é tarefa retórica. Exige escolhas consistentes menos rito, mais execução; menos gesto, mais resultado.
Entre a aparência de ação e a ação efetiva, há uma diferença decisiva. É nela que se mede a qualidade de uma sociedade e se define o seu futuro.
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