Edição: sábado, 16 de maio de 2026

José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

A CONCESSÃO DA LIGHT


José Luiz Alquéres, membro do Conselho de Administração da Light S.A.


Com muita justiça e propriedade, o governo federal renovou no último dia 8 de maio, por mais 30 anos, a concessão de exploração dos serviços de distribuição de energia elétrica na cidade do Rio de Janeiro e em 31 municípios vizinhos. É um fato inédito uma empresa com 120 anos de existência conseguir sobreviver e prestar um serviço essencial por tão longo espaço de tempo. Poucas outras a igualam nesse aspecto, como a Energisa, do grupo Ivan Botelho, e a Eletropaulo, hoje de propriedade da Enel, empresa que detém várias concessões pelo mundo, desenvolvidas a partir de seu núcleo original na Itália.

Ao longo desses 120 anos, a Light assistiu à inauguração da Avenida Central, à queda da República Velha, à implantação da ditadura getulista, ao explosivo crescimento urbano que se seguiu à Segunda Guerra Mundial, ao incontrolável surto automobilístico e à perda da oportunidade de direcionar o crescimento urbano por meio de um sistema logístico de eletrificação sobre trilhos, com trens e metrôs implantados com 40 anos de atraso e, portanto, a custos muito elevados.

Se, do ponto de vista econômico e social, essas várias circunstâncias foram extremamente desafiadoras, do ponto de vista tecnológico as transformações foram transcendentais, especialmente quando aos progressos da eletricidade vieram somar-se os da eletrônica e da digitalização, alterando equipamentos e passando a exigir dos sistemas níveis cada vez mais elevados de qualidade e continuidade no fornecimento aos consumidores. A empresa, entre 1905 e 1978, teve sede em Toronto, no Canadá, embora a maioria de seus acionistas tenha variado ao longo do tempo entre canadenses, ingleses, belgas e novamente ingleses e canadenses, até ser adquirida, em 31 de dezembro de 1978, pela Eletrobras, então pertencente ao governo federal brasileiro. Entre essa data e 1996, teve seus sistemas modernizados, estendeu seus serviços a todas as habitações, tanto em áreas convencionais quanto em favelas, ampliou a cobertura às áreas rurais de seus municípios e passou a ostentar elevados índices de qualidade e continuidade.

Em 1996, foi a segunda das grandes distribuidoras brasileiras a ser privatizada. A partir de então, vários grupos se sucederam em seu controle acionário, a maioria sem grande sucesso empresarial, embora jamais tenham deixado de cumprir suas obrigações com os consumidores fato agora reconhecido pela renovação da concessão. Trata-se de um grande ato de coragem dos atuais acionistas, que enfrentam a necessidade de promover uma significativa modernização, digitalização e descarbonização de todas as atividades empresariais, além de contribuir com a Prefeitura e, especialmente, com o Governo do Estado, para uma mudança profunda na forma de encarar o fenômeno urbano.

Hoje, o grande problema da concessão não está ligado às tecnologias elétricas, que a empresa domina plenamente, mas à necessidade de renovação da abordagem da segurança pública nas áreas urbanas; à revalorização do bairro como unidade de vizinhança sociocultural, capaz de devolver a seus moradores um sentimento de responsabilidade em relação às ruas e praças; e, por que não dizer, ao aumento da eficiência dos serviços prestados pelos três níveis de governo no tocante à saúde, à educação, à gestão dos órgãos públicos, à segurança e ao respeito aos direitos essenciais da população.

Nesta nova etapa, a Light que no passado já deteve as concessões dos serviços de eletricidade, iluminação pública, transporte, gás canalizado, telefonia e telecomunicações, além de compartilhar instalações responsáveis pelo suprimento de água potável do Rio de Janeiro e até mesmo administrar atrações turísticas como o Bondinho do Corcovado, o Hotel das Paineiras, a arborização urbana e a preservação de mais de 30 mil hectares no entorno de seus reservatórios deverá liderar uma ação conjunta entre as diferentes concessionárias que hoje têm sob suas responsabilidades aqueles serviços, para que voltem a desenvolver-se de forma articulada, em benefício da população.

A cidade moderna é um ente extremamente complexo. Todos os agentes envolvidos, em vez de trocarem farpas, judicializarem disputas e eximirem-se de responsabilidades diante dos problemas, devem unir-se na grande tarefa de fazer da construção humana no Rio de Janeiro algo capaz de rivalizar com a beleza natural da paisagem que Deus lhe legou. A Light estará profundamente empenhada nessa missão.

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