Edição: sábado, 23 de maio de 2026

José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

Falando de Cidade


José Luiz Alquéres Vice-presidente do IHGB, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro


É muito comum, no Brasil, a publicação de reportagens e, mais recentemente, de livros dedicados a problemas específicos das cidades. Em geral, o foco recai sobre segurança pública, conservação de vias e calçadas, organização de grandes eventos que perturbam a vida cotidiana dos moradores em benefício de aglomerações realizadas em praias, parques e espaços públicos. São textos que, raramente, apontam aspectos positivos e, quase sempre, se concentram nos problemas.

Mais rara, porém, é a abordagem que procura compreender a cidade como uma estrutura complexa, viva e dinâmica, na qual interações sociais se estabelecem entre classes distintas, bairros diferentes, múltiplas atividades econômicas e variadas formas de ocupação do território. É justamente dessa rede de relações que nasce o caráter específico de cada cidade. Por isso, é bem-vindo o surgimento de obras que adotam essa visão mais ampla do
fenômeno urbano. Historiadores, urbanistas e engenheiros vêm, ainda que timidamente, produzindo reflexões dessa natureza. E tais obras podem ser divididas em duas grandes categorias: as catastróficas, que enxergam um inevitável declínio do processo civilizatório, e as esperançosas, que sustentam que, por maiores que sejam as dificuldades, cabe à geração presente construir o futuro em benefício de seus próprios descendentes.

Esse conceito possui raízes filosóficas profundas. Surge com Immanuel Kant, o maior representante do idealismo alemão e verdadeiro ponto de inflexão da filosofia moderna, ao reconhecer que as gerações atuais possuem responsabilidades em relação às gerações futuras. Hoje, entretanto, já não se trata de poucas responsabilidades, mas de muitas. Elas abrangem desde a formação do ambiente sociocultural até a construção de uma mentalidade coletiva capaz de direcionar esforços para a conquista de relações mais civilizadas dentro das cidades.

No início do século XX, o campo da sociologia urbana recebeu a notável contribuição de Robert Park e outros membros da chamada Escola de Chicago. Na mesma época, o jornalista João do Rio talvez um dos mais geniais cronistas urbanos da história brasileira publicou o clássico “A Alma Encantadora das Ruas”. A partir de episódios concretos, personagens reais e situações observadas em diversos bairros cariocas, construiu uma visão extraordinariamente rica da cidade. Uma visão que captava justamente a multiplicidade e a complexidade das relações estabelecidas pelas obras físicas, pela segregação espacial, pela qualidade das moradias conforme as diferentes classes de renda, pelas atividades econômicas e pela forma como tudo isso, combinado, produz o fenômeno urbano.

Hoje, no Brasil, cerca de 85% da população vive em cidades. E esse processo de urbanização, ao lado de algumas virtudes inegáveis, vem produzindo também enormes vulnerabilidades. Vulnerabilidades relacionadas à formação das novas gerações, ao colapso da segurança pública e à crescente exposição de parcelas imensas da população à violência cotidiana.

Basta observar o caso do Rio de Janeiro. Aproximadamente um quarto das habitações da cidade encontra-se em condições subumanas. Ao mesmo tempo, quase metade da população vive ou circula em áreas submetidas ao domínio territorial de milícias ou traficantes de drogas, verdadeiros estados paralelos que exploram serviços públicos e exercem poder político e econômico em benefício próprio. Este não é um problema isolado. A educação, a saúde, o acesso à cultura, a circulação urbana e até mesmo a convivência social passam, progressivamente, a se subordinar a esse conjunto de restrições negativas.

Esse quadro, muitas vezes interpretado como o primeiro capítulo de um estágio civilizatório de degradação absoluta, pode, paradoxalmente, tornar-se também o prólogo de um novo ciclo de desenvolvimento urbano brasileiro. É precisamente nesse ponto que ganha relevância o trabalho de autores que insistem em resgatar a reflexão séria sobre as cidades.

Entre eles destaca-se Vicente Loureiro, urbanista e autor de diversos livros, que prepara o lançamento de “Evidências Urbanas”, obra na qual reúne, com rara sensibilidade, cerca de 60 artigos originalmente publicados no portal “Nova Iguassu Online” e outras mídias. Vicente Loureiro possui ainda uma singularidade importante: nasceu e vive em Nova Iguaçu, município da Baixada Fluminense que, apesar das dificuldades metropolitanas, e graças a pessoas como ele, conseguiu preservar um centro urbano ativo e uma elite intelectual formada por profissionais liberais, pensadores e cidadãos comprometidos com a manutenção da identidade cívica local.

Esse aspecto talvez seja um dos mais relevantes de sua reflexão. Nas grandes aglomerações urbanas compostas por vários municípios, o conceito de região metropolitana deixa de ser mera abstração administrativa e passa a representar condição essencial para a sobrevivência civilizada. Sem planejamento integrado, sem visão compartilhada e sem cooperação entre municípios vizinhos, a degradação urbana tende a tornar-se estrutural. Com eles, contudo, ainda pode existir a possibilidade de reconstrução de um ambiente urbano mais equilibrado, humano e sustentável para as próximas gerações.

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