Edição: domingo, 07 de junho de 2026

José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

Das 200 Pra Lá


Este confronto entre Brasil e EUA, acentuado pelas atitudes dos nossos candidatos à Presidência nas eleições deste ano, tem um lado sério, mas também um lado altamente ridículo e apelativo. As notícias da última semana me fizeram lembrar aqueles episódios de 1970 que sucederam a chamada “Guerra da Lagosta” e a suposta declaração de De Gaulle de que o Brasil não seria um país sério. Naquela ocasião, o debate estava relacionado à soberania do país sobre a plataforma continental até a distância de 200 milhas da costa, quando vigorava o limite de 12 milhas náuticas.

Muitos acharam que se tratava de mera proteção às áreas onde se pescava lagosta, mas o tempo mostrou que a exploração do petróleo e, no futuro, quem sabe, de recursos minerais já estava no foco daqueles estrategistas do regime militar que conceberam a medida, de resto adotada pelo Direito Internacional tempos depois.

Um dos fatos que popularizou a medida para grande parte da população foi o grande sucesso nacional de autoria de João Nogueira, gravado por Eliana Pittman em 1971, cujos primeiros versos diziam:

“Esse mar é meu
Leva seu barco pra lá desse mar
Esse mar é meu
Leva seu barco pra lá
Vá jogar a sua rede das 200 pra lá
Pescador dos olhos verdes
Vá pescar em outro lugar” ()

Este samba brejeiro, durante algum tempo, fez com que João Nogueira sofresse o patrulhamento da esquerda, como se fosse uma apologia ao regime militar. Ele, mais malandro do que nunca, defendia-se dizendo: “Não sou nenhum Dom e Ravel!”.

Será que ninguém se aventurará a fazer uma marchinha sobre esta ridícula foto de Trump com Flávio, Eduardo e Figueiredo, que lá foram pedir uma ajudinha para melhorar a barra após o vexame do Dark Horse? Também não entendo como passou em branco aquela história da boa química nascida a partir de uma troca de olhares presidenciais nos corredores da ONU. Onde está o espírito galhofeiro de Millôr e Sérgio Porto? Pode ser até que, eleitoralmente, essas coisas funcionem, mas, do ponto de vista moral, trata-se de uma das mais lamentáveis atitudes de um político que almeja ser presidente do Brasil.

Não posso deixar de lembrar a frase cáustica do movimento estudantil brasileiro em 1966: “Chega de intermediários, Lincoln Gordon para presidente!”. Como se sabe, este era o embaixador norte-americano no Brasil, a quem se atribuía a influência americana por trás do golpe de 1964.

Com questões de soberania não se deve brincar lembremos do infortunado Calabar.

Tais questões permanecem na memória e costumam perpetuar o repúdio àqueles que, por uma razão ou outra, procuram, na ajuda externa, materializar seus propósitos e metas de conquistar o poder interno. Venham ou não a ser efetivas as medidas, os atores envolvidos, em ambos os lados direita e esquerda , tendem a sujar ainda mais as suas biografias e devem dar graças a Deus por nenhum de nossos grandes sambistas estar dando atenção para musicar o besteirol em que se transformou a nossa política externa nos últimos governos.

Caso queiramos verdadeiramente enfrentar o crime organizado, devemos exigir a mobilização nacional dos três Poderes para acabar com o presente jogo de empurra e enfrentar a situação, porque isto aqui não é Iraque, Afeganistão ou Faixa de Gaza, onde, por sinal, aquele tipo de ajuda nada resolveu. Temos meios internos para resolver nossas questões. Há bons cidadãos na polícia, na Justiça e nas Forças Armadas para tratar do problema por nós mesmos. O que falta é vergonha na cara e vontade dos nossos políticos.

José Luiz Alquéres, Vice-presidente do IHGB-Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

Edição: domingo, 07 de junho de 2026

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