Edição: sábado, 04 de julho de 2026

José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

Sessenta anos depois

A explosão do consumo de livros no século XIX deveu-se, em grande parte, à popularização das novelas em folhetins. Publicadas em capítulos sucessivos, mantinham os leitores na expectativa pela edição seguinte. Na França, autores como Alexandre Dumas transformaram esse gênero em um extraordinário sucesso editorial. Entre suas obras, poucas alcançaram a projeção de Os Três Mosqueteiros, seguido por Vinte Anos Depois.

Foi justamente esse título que inspirou esta crônica. Chamei-a Sessenta Anos Depois, como se fosse mais um capítulo do longo folhetim da vida da turma da EPUC 66.

Há poucos dias voltamos a nos reunir, desta vez para um almoço. A idade já não recomenda aventuras noturnas, especialmente no Rio de Janeiro. Preferimos a luz do dia, as conversas demoradas e a oportunidade de celebrar aquilo que o tempo fortaleceu: a amizade.

Faço parte dessa turma. Éramos mais de cento e cinquenta jovens quando ingressamos na PUC-Rio, em 1962, após o vestibular de 1961. Vínhamos de bairros, famílias, tradições e condições econômicas distintas, mas compartilhávamos um mesmo projeto: tornar-nos engenheiros. Naquele tempo, ser engenheiro significava participar da construção de um país que acreditava no futuro.

Vivíamos um período de grandes transformações. Brasília ainda era recente, o Estado da Guanabara passava por uma profunda modernização e o Brasil iniciava um ciclo de expansão da infraestrutura. Empresas públicas e privadas abriram oportunidades inéditas para nossa geração, que se espalhou pelo país em obras de energia, transportes, telecomunicações, petróleo, siderurgia e construção pesada.

Durante as primeiras décadas de nossa vida profissional respiramos um ambiente de confiança. Parecia natural acreditar que o Brasil deixaria para trás, definitivamente, a condição de país subdesenvolvido. A expressão “país em desenvolvimento” traduzia bem aquele sentimento de esperança.

Essa trajetória, porém, sofreu uma inflexão após o segundo choque do petróleo. O elevado endividamento externo e a dependência das importações de energia interromperam aquele ciclo virtuoso. Vieram anos difíceis, seguidos mais tarde por uma retomada do crescimento e pela redemocratização, que reacenderam o otimismo.

Com o passar do tempo, entretanto, o país passou a privilegiar políticas distributivas, indispensáveis para reduzir desigualdades, mas acompanhadas de menor estímulo às atividades diretamente produtoras de riqueza. A indústria perdeu competitividade diante da concorrência internacional, enquanto a agricultura e a mineração consolidaram sua posição como grandes motores da economia.

Nossa turma viveu todas essas fases. Compartilhamos entusiasmos, frustrações e expectativas de um Brasil que, tantas vezes, pareceu prestes a realizar plenamente seu enorme potencial.

Quando nos formamos, imaginávamos que, ao chegar aos setenta ou oitenta anos, encontraríamos um país definitivamente integrado ao grupo das grandes nações desenvolvidas. A história seguiu outro ritmo. As transformações tecnológicas avançaram mais rapidamente do que nossa capacidade coletiva de adaptação.

Mesmo assim, o reencontro da semana passada deixou uma impressão diferente. Já não éramos cento e cinquenta. Reuníamo-nos cerca de cinquenta colegas, acompanhados de suas esposas. Curiosamente, nossas conversas já não giravam em torno das próprias carreiras, mas da trajetória de filhos e netos.

Eles ocupam espaços profissionais que sequer existiam quando recebemos nossos diplomas. Destacam-se nas tecnologias da informação, na inteligência artificial, na biotecnologia, na ciência de dados e em tantas outras áreas que moldam o mundo contemporâneo.

Percebemos, então, que a esperança apenas mudou de geração. Talvez não sejamos nós os protagonistas das maiores transformações do Brasil. Mas temos a alegria de ver nossos filhos e netos preparados para construir parte do futuro que sonhávamos quando éramos estudantes.

Também é justo reconhecer o quanto o país avançou. Quando nos formamos, o Brasil possuía cerca de três mil megawatts de capacidade instalada de geração elétrica e pouco mais de dois milhões de linhas telefônicas. Hoje dispõe de aproximadamente duzentos e cinquenta mil megawatts, tem mais telefones do que habitantes e figura entre os maiores produtores mundiais de alimentos.

Não é o país que imaginávamos. Mas tampouco é o país que deixamos para trás. Sessenta anos depois, podemos dizer que travamos o bom combate. Conservamos nossos princípios, preservamos nossas amizades e mantivemos vivo o respeito pelos companheiros de jornada e por suas famílias, especialmente pelas esposas, parceiras silenciosas dessa longa caminhada, que ajudaram a transmitir às novas gerações os valores da educação, do trabalho e da esperança.

O folhetim da EPUC 66 continuará a ser escrito. Cada vez menos por seus personagens originais, mas cada vez mais pela lembrança de uma geração que teve o privilégio de participar da construção do Brasil moderno e de transmitir esse legado aos que agora escreverão os próximos capítulos.

Edição: sábado, 04 de julho de 2026

Veja também:




• Home
• Expediente
• Contato
 (24) 99993-1390
redacao@diariodepetropolis.com.br
Rua Joaquim Moreira, 106
Centro - Petrópolis
Cep: 25600-000

 Telefones:
(24) 98864-0574 - Administração
(24) 98865-1296 - Comercial
(24) 98864-0573 - Financeiro
(24) 99993-1390 - Redação
(24) 2235-7165 - Geral