Edição: domingo, 16 de agosto de 2026

José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

Releituras ou descaracterizações?

"Traduttore, traditore". Traduzir uma obra literária já encerra, por maiores que sejam os esforços e a competência do tradutor, um inevitável ato de traição às sensibilidades do autor. Adaptar para o cinema uma obra literária constitui desafio ainda maior, sobretudo quando se trata de um dos mais antigos e influentes textos da literatura universal e, ao mesmo tempo, de uma de suas maiores realizações.

Há um destino triste reservado a muitas releituras de obras clássicas, sejam elas sob a forma de textos em prosa, poesias, audiovisuais ou películas cinematográficas. Quando artistas, por mais talentosos que sejam, decidem reinterpretar obras consagradas à luz dos valores, condicionantes e circunstâncias de sua própria época, precisam agir com extremo cuidado. A atualização de um clássico é um exercício legítimo da criação artística, mas não pode servir de pretexto para descaracterizar a essência da obra original.

Um exemplo bem-sucedido é Ulisses, de James Joyce. Embora inspirado na Odisseia, de Homero, o romance não pretende substituir nem reescrever o poema épico. Joyce criou uma obra profundamente original, que dialoga com o clássico sem lhe retirar a identidade. Por isso, conquistou reconhecimento universal e ocupa um lugar próprio na história da literatura.

O mesmo nem sempre ocorre com determinadas adaptações contemporâneas do cinema. Algumas delas procuram reinterpretar personagens e acontecimentos de tal maneira que acabam rompendo com os fundamentos que fizeram dessas narrativas obras universais. A intenção de aproximá-las da sensibilidade atual pode resultar justamente no efeito contrário: em vez de homenagear o original, produz-se uma versão que parece explorar apenas sua notoriedade.

Na Odisseia, a jornada de Ulisses é marcada pelo desejo incessante de retornar ao lar. As dificuldades, os perigos e as tentações que encontra pelo caminho apenas reforçam sua determinação em reencontrar Ítaca, sua família e seu destino. É essa trajetória que confere ao personagem sua grandeza humana e literária, à luz dos valores de uma civilização remota, anterior ao cristianismo e também às interpretações psicológicas modernas.

Toda releitura é bem-vinda quando acrescenta novas perspectivas sem destruir a identidade da obra que lhe deu origem. Quando, porém, a adaptação altera a essência dos personagens ou da narrativa apenas para acomodá-los às conveniências ideológicas ou culturais do presente, deixa de ser uma homenagem e passa a ser apenas uma apropriação indevida de um clássico.

Nietzsche afirmou que o grande objetivo do homem é "tornar-se aquilo que é". Também os personagens clássicos possuem uma identidade própria. Quando a identidade desaparece, resta apenas uma sucessão de personagens que conservam seus nomes, mas já não representam aquilo que os tornou universais.

Na atual versão cinematográfica, Odisseu já não é Odisseu. Helena deixou de ser Helena. Menelau tampouco conserva os traços que o caracterizam, e até Argos, o velho cão cuja fidelidade constitui uma das passagens mais comoventes da literatura universal, parece estranho à narrativa de Homero. Faltam consistência às paisagens, verossimilhança às situações representadas e autenticidade aos personagens. O resultado é uma Odisseia transformada numa espécie de faroeste pelintra, apesar do enorme investimento em espetaculares recursos visuais, colocados a serviço de um conteúdo artisticamente pobre.

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