Edição: sábado, 19 de setembro de 2026

José Luiz Alquéres

COLUNISTA

José Luiz Alquéresz

UM DIA NA VIDA DE SUBSIDILINO

Em 1961, Paulo Guilherme Martins publicou Um Dia na Vida do Brasilino, pequeno livro de grande repercussão. Seu personagem era um brasileiro comum que, do despertar à hora de dormir, consumia produtos e serviços de empresas estrangeiras e, sem perceber, remetia para fora do país, em lucros e dividendos, parte da riqueza que ajudava a produzir.

Mais de seis décadas depois, Brasilino mudou. Hoje ele é Subsidilino, o brasileiro típico das primeiras décadas do século XXI.

Subsidilino pode consumir muito mais produtos brasileiros. O que talvez não saiba é que, ao consumir quase qualquer coisa, participa de um gigantesco sistema de transferência de renda. Parte do grupo populacional ao qual pertence, incluindo dos brasileiros mais pobres, ao consumir paga, sob a forma de impostos mais elevados ou subsídios, um tributo a grupos econômicos privilegiados pelo Estado.

Esses mecanismos reduzem a poupança e distorcem uma das grandes virtudes do capitalismo: a competição, que aumenta a eficiência, estimula a inovação e reduz preços.

Muitas vezes há apenas uma aparência de competição: uma disputa fajuta, mascarada por subsídios e proteções negociados por grupos de pressão no Congresso, nas agências reguladoras e no Executivo. Benefícios concedidos a poucos acabam pagos por todos, na maioria das vezes de forma suspeita.

Vejamos um dia na vida de Subsidilino: Ele acorda e toma sua xícara de café. O café, porém, é de quarta ou quinta qualidade, porque boa parte dos melhores grãos produzidos no país se destina à exportação.

Subsidilino não tem carro. Se tivesse, ao abastecê-lo encontraria outro universo de intervenções, incentivos e subsídios. Gasolina, diesel e etanol estiveram, em diferentes momentos, sujeitos a políticas destinadas a estimular sua produção, conter preços ou reduzir impactos sobre a inflação e o transporte.

Alguém paga essa conta. No fim, direta ou indiretamente, ela retorna ao cidadão que se pretendia proteger. O dinheiro público não surge por geração espontânea: vem dos impostos, da dívida ou da renúncia a receitas que poderiam financiar outras prioridades.

Subsidilino sai para trabalhar: Pode ir de carro de aplicativo ou táxi, setores que também já receberam incentivos, facilidades tributárias ou financiamentos especiais. E entra no congestionamento. Paga novamente, agora com algo que nenhum governo devolverá: seu tempo.

Pode gastar uma hora e meia ou duas para chegar ao trabalho e outro tanto para voltar. Em algumas grandes cidades, isso representa três ou quatro horas diárias perdidas em deslocamentos.

Finalmente chega ao trabalho: Pode atuar nos serviços, no comércio, na alimentação ou na indústria. Dificilmente escapará, porém, de uma característica que atravessa quase toda a economia, os custos elevados.

Os serviços se tornam caros porque carregam o preço de insumos, tributos, burocracia e infraestrutura deficiente, para não falar da corrupção, apesar da extraordinária escala do mercado brasileiro, com mais de 200 milhões de consumidores.

Se trabalha na indústria, encontra outra face do mesmo problema. Aço, combustíveis, energia, transportes e outros insumos chegam à produção onerados por impostos, encargos, proteções tarifárias, ineficiências e subsídios cruzados.

A proteção contra a competição externa pode preservar determinados produtores, mas tem um preço. E quem o paga, novamente, é Subsidilino.

Assim, ele produz mercadorias e serviços que chegam ao mercado mais caros do que seus equivalentes em economias concorrentes. Seu esforço sustenta uma estrutura que reduz a produtividade do país e compromete sua capacidade de competir, mesmo às custas de seu baixo salário.

E o círculo se fecha. A mesma economia que subsidia, protege e concede privilégios convive com informalidade, furto de energia, sonegação, descumprimento da legislação trabalhista e uma burocracia que encarece quase todas as etapas da atividade econômica. Somam-se os custos da corrupção, quando presente, cobrando seu infame pedágio ao longo da cadeia produtiva.

No fim, todos esses custos encontram alguém. E esse alguém é Subsidilino. É difícil viver motivado.

Subsidilino, qual Pedro Pedreiro no samba de Chico Buarque, vai pensando enquanto espera. Pensa no transporte, no trabalho, no dinheiro que não chega ao fim do mês, no país que poderia ser e naquele em que vive. Pensa até cansar de pensar.

Pedro Pedreiro, de tanto esperar, quase desiste de compreender. Subsidilino corre o mesmo risco: aceitar como natural uma realidade que poderia ser diferente.

Talvez essa seja uma das mais persistentes tragédias brasileiras.

Brasilino, em 1961, atravessava o dia sem perceber quanto da riqueza que produzia remunerava interesses estrangeiros. Subsidilino atravessa o seu sem perceber quantas vezes paga para sustentar privilégios criados em nome de sua própria proteção.

Mudaram os produtos, as empresas, os governos e as justificativas. O mecanismo conserva inquietante semelhança: os benefícios são concentrados; a conta, socializada.

Subsidilino reproduz, assim, uma história de mais de cinco séculos em que grande parte da população permanece distante das decisões daqueles que deveriam representar seus interesses e criar as condições para o desenvolvimento do país.

O Brasil continua parecendo reunir quase todas as condições para se tornar o país dos sonhos do futuro. O problema é que o futuro não chega por decreto, proteção, privilégio ou subsídio. Ele chega quando uma sociedade decide premiar a eficiência em vez da influência, a competição em vez do privilégio, o investimento em vez do favor e o interesse coletivo em vez da capacidade de poucos capturarem o Estado.

Sessenta e cinco anos depois de Brasilino, Subsidilino continua pagando a conta.

Talvez o maior subsídio de todos seja aquele que ele concede, sem perceber, ao sistema que o mantém exatamente onde está: reeleger os corruptos.

Edição: sábado, 19 de setembro de 2026

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