Edição: sexta-feira, 06 de março de 2026

Reinaldo Paes Barreto

COLUNISTA

Reinaldo Paes Barreto

Começou em Lisboa e acabou mal


Morei em Lisboa de 1954 a 1958, porque o meu pai era Cônsul-Geral Adjunto naquela cidade. A partir de 1957, eu acho, o nosso embaixador tinha uma filha adolescente, uns quatro anos mais velha do que eu, linda, linda de morrer. E culta, como o pai. Tinha lido Os Lusíadas. E bastante moderna para a época. Foi o meu primeiro alumbramento, como poetou o Manuel Bandeira, nuns versos maravilhosos. Até porque a embaixada tinha uma piscina e como eu era amigo do irmão dela, passei algumas manhãs do verão por lá. Ela, de duas peças, não se usava biquíni nesses remotos anos 50 muito menos em Portugal ficava sentada na borda, e só o soutien, generoso, já seria motivo para chamar a PIDE*.

Muitos anos depois, uns trinta, já aqui no Rio, eu tinha uma prestigiada coluna em dois jornais, sobre gastronomia, e ela me achou pelas Listas Telefônicas. Ligou dizendo que tinha aberto um restaurante no Centro, sempre acompanhava os comentários, e tal, e me pedia para dar uma nota.

Respondi “claro, com o maior prazer”, mas adiantei que gostaria de conhecer o tal restaurante para poder escrever algo convincente. Além do dever profissional de checar a comida, o serviço e o ambiente, não resisti à curiosidade de revê-la, tanto tempo depois, logo ela que povoou as minhas fantasias de pré-adolescente -- para dizer o menos!

Uns dias antes, no entanto, ela me ligou de novo dizendo que a casa estava em obras por conta de um vazamento, propondo então que a gente se encontrasse em outro restaurante. Gentilmente perguntei onde ela estava morando, ela me disse “na Glória, na rua do Russel” e aí me lembrei de sugerir a minha saudosa Casa da Suiça, ali perto. Marcamos às 12:30 da quinta-feira seguinte.

Cheguei uns cinco minutos antes (sou irritantemente pontual) e fiquei tomando uma taça de Chardonnay, no bar, enquanto aguardava. Mas já com mesa reservada. Deu 13h, 13:30, e nada dela aparecer. Percorri os dois salões, discretamente, porque ela poderia ter mudado tanto que eu não a estivesse reconhecendo. Não, não havia a hipótese. Sentei-me, então, resignado, chamei o veterano Volkmar, e pedi o almoço, imaginando que algum imprevisto mais sério tivesse ocorrido.

Uma meia hora depois, fui chamado ao balcão para atender a uma chamada telefônica (não havia celulares, nesse início dos anos 80). Era ela, com voz chorosa, dizendo-se humilhada porque tinha “levado um bolo”...

Disse “alô” e fiquei em silêncio. Ela me explicou com voz entrecortada que tinha me esperado “horas” do lado de fora, e tinha voltada para casa na maior frustração. Eu estava tão irritado (e frustrado), que devo ter dito:

“mas será que não te ocorreu entrar e perguntar por mim?”

Respondeu: “não”. E aí me caiu a ficha. O restaurante da Casa da Suiça ficava ao fundo de um corredor, precedido por uma escadinha que vinha da rua, e um segundo lance até um pavimento superior. E ela, simplesmente, idiotamente, tinha chegada tipo 12:40 (eu acho) e ficado do lá de fora, na calçada, me esperando...

Ou seja, conhecia Camões, mas não o expediente de viver. Não nos vimos na sequência, nem nunca nos vimos outra vez.

Teve uma morte trágica, anos depois.

*PIDE: era a temida polícia política (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) do Salazar

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