Edição: sexta-feira, 13 de março de 2026

Reinaldo Paes Barreto

COLUNISTA

Reinaldo Paes Barreto

Assim é se lhe parece... (*)


Estou lendo o livro Recapitulações, da escritora e ex-freira Maria Valéria Rezende, em que ela se propõe a subverter a narrativa de obras literárias famosas, ou filmes, como Dom Casmurro, do mestre Machado; Metamorfose, do Kafka; Blow-up, do Antonioni, etc.

Por exemplo: no capítulo que dá o título do livro, Capitu (a célebre personagem de Machado, em Dom Casmurro), escreve de Paris para a Sancha, viúva de Escobar e convida a amiga a ir morar com ela “na Cidade Luz” e aproveitarem a vida com os dotes herdados dos respectivos maridos. Só relembrando, o de Capitu, foi Bentinho, que com ela e Escobar formou o triângulo amoroso mais famoso do romance brasileiro.  Mas essa “lógica” não é inédita. Em 1963, o argentino Julio Cortázar lançou o livro O Jogo da Amarelinha, no qual cabia ao leitor escolher o desfecho da narrativa. Tanto que logo no começo há um “tabuleiro de direção” que propõe dois caminhos: um, ler do capítulo 1 ao 56 em ordem normal; o outro, saltar da sequência e ler os capítulos 73, 57, 84, etc, em que o mesmo personagem, Oliveira, vive uma outra vida, em outra cidade.

Mas a melhor história dessa técnica ”disruptiva”, é a seguinte: o genial publicitário (e amigo) Lula Vieira, proprietário de um humor incontornável, quando trabalhava na Agência JMM fazia umas dublagens “heterodoxas” (para ser sutil) de filmes clássicos. E a de que mais gosto é esta: na famosíssima cena de Casablanca em que o Humphrey Bogart entra, pimpão, salão adentro do seu Rick’s Café Américan e ouve, atônito, a Ilsa Lund (Ingrid Bergman) dizer com doçura ao pianista Sam (ator Dooley Wilson) “play it again, Sam” (a canção é “As Time Goes By”), em vez de como na versão correta dizer ao músico: “eu acho que já lhe disse para nunca mais tocar essa música”, na versão do Lula ele se vira para o pianista e pergunta: “quem é essa vadia”?

E o pianista ataca de “Mamãe Eu Quero”...

(*) Assim é se lhe parece é o título de uma peça teatral escrita em 1917 pelo dramaturgo italiano Luigi Pirandello (“a verdade depende do ponto de vista de cada um”).

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