COLUNISTA
Mexendo em guardados, achei um álbum da saudosa e querida Danusia Barbara, chamado Sabores e Segredos do Rio.
Foi editado pela Ediouro, em 1997, com mais de 250 entrevistas com os “militantes do paladar” daquela época. Cada um de nós foi convidado a fazer um depoimento da sua relação com a comida, como tudo começou e, na sequência, uma receita afetiva.
E eu escrevi assim: “foi uma questão de sobrevivência. Quando fui morar e estudar em Paris, de 1966 a 1968, a primeira prova pela qual eu tinha que passar na companhia de um/uma ou mais franceses, era provar que eu não era um “indien sud-américain” que se alimenta(va) de mandioca e peixe moqueado, harmonizados com guaraná ralado em língua de pirarucu, dissolvido em dois dedos do Tapajós...”
Ou seja, cedo aprendi a discorrer com ar blasé (“ça va sans dire”) ao mantra do título: almoçar falando do jantar. Ou seja, durante o almoço, antecipar o menu pensado para o jantar, não repetindo evidentemente nenhum dos ingredientes ingeridos à luz do dia. Isso, quando não plantava uma fake news, mas com a segurança de um John Wayne entrando num saloon, e afirmava: “o queijo Reblochon dá de dez a zero no Brie de Meaux.”
E se na plateia “houvesse” “jolies filles”, ainda deitava falação: “até porque apreciar um bom prato é uma questão de urgência. Você adia o sexo, como adia a compra de uma bicicleta ergométrica. Mas um “canard aux olives”, jamais!”
Voilà.
E a pena é que nessa época eu não conhecia, ainda, a minha outra amiga e escritora oceânica Nélida Piñon, que também já partir, e que jantando no México com escritores, saiu-se com esta: “eu só gosto de comida que mata” (ostras, mexilhões, escargots).
Mas às vezes jantava sozinho em casa o rango que tinha sobrado do almoço: “c’est l avie”...
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