COLUNISTA
Dia 23 de setembro é o Dia Nacional do sorvete.
No dia 6 de agosto de 1834, chegava ao Rio o primeiro carregamento de gelo -- 160 toneladas -- vindo de Boston, nos EUA. Envolvido em serragem, o pacote foi enterrado em grandes buracos no sopé do Morro do Castelo, o que permitiu a sua conservação por quatro ou cinco meses. “Queima a língua”, diziam os primeiros cariocas que provaram sorvete, que era anunciado com a indicação da hora certa de tomá-lo.
Causou tal alvoroço na cidade, que .
A tal ponto, que até as mulheres “de bem”, que eram interditadas de entrar em bares, cafés e confeitarias, resolveram quebrar o preconceito e faziam fila para experimentar a novidade. Pode-se dizer que o sorvete estimulou o movimento feminista de frequentar lugares até então reservado só para os homens. Tanto que nos primeiros anos do século XX, na Confeitaria Colombo, elas levavam até os velhos a sassaricar na porta...
Vamos andando. No início dos anos quarenta, o sorvete começou, então, a ser distribuído em escala comercial no Rio. O primeiro lançamento foi o Eskibon, em 1942, seguido pelo Chicabon, logo depois. E só aumentou a oferta e a demanda, inclusive em outras praças, de outros estados. Na sequência, surgiu a versão mais bem “vestida”: o Sunday. Como o nome indica, era assim chamado porque oferecido aos domingos, como prêmio de uma semana trabalhada. Hoje, graças à multiplicidade de que dispõe a tecnologia e, em paralelo, ao retorno a uma quase manufatura industrializada -- a palavra sorvete é a designação genérica de um sem números de gelados. Desde os preparados com as mais variadas frutas (as do Norte como insumo fazem sucesso), até os cremosos, os picolés, e os que acrescentam álcoois na composição, como cachaça, vodka, poire (o sorbet para lavar o paladar entre dois pratos condimentados), os diets, etc. E o sorvete também não é mais patrimônio do verão. Graças, sobretudo aos italianos, ele é consumido mesmo com os termômetros marcando menos de dois dígitos.
Aliás, quando estive em Roma ainda moço, e solteiro, no fim dos anos sessenta, se dizia que o segredo para uma noite amorosa de sucesso era uísque para o rapaz (relaxar) e sorvete para a “ragazza” (para efeito contrário: o sangue sair correndo pelas veias). E já não queimam mais a língua!
*Colunista de gastronomia e vinhos, um dos fundadores da confraria Os Companheiros da Boa Mesa, em funcionamento desde 1982, e um dos embaixadores do Turismo do Rio.
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