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Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

A China Não Quer Colocar o Renminbi No Lugar do Dólar


Ronaldo Fiani


Vários artigos têm alertado para uma pretensa intenção chinesa de substituir o dólar como moeda global pela sua própria moeda, o renminbi. Um exemplo é o artigo da Economist de dez de setembro deste ano, intitulado “China is ditching the dollar, fast” (A China está abandonando o dólar rapidamente, disponível em https://www.economist.com/china/2025/09/10/china-is-ditching-the-dollar-fast ). Em um podcast que ouvi recentemente, em que os economistas participantes reconheciam que a China não está agindo de forma a substituir o dólar pela sua própria moeda como moeda global, este fato era encarado com perplexidade. Um dos economistas chegou mesmo a dizer que a China possuía uma estratégia clara com relação à indústria, mas não com relação à sua moeda. Esta é uma avaliação totalmente equivocada.

Nos artigos que mencionei e na perplexidade daqueles economistas, existe a ideia de que, juntamente com o desenvolvimento industrial chinês, deveriam vir iniciativas para que a sua moeda suplantasse o dólar como moeda global em transações comerciais e financeiras. Contudo, se os chineses tentassem substituir o dólar pelo renminbi agora, estariam cometendo  um erro capital. Trata-se de algo muito improvável, dada a coerência e a disciplina com que a China tem agido, ao menos até o momento.

Para entender isso, é preciso considerar que qualquer moeda que aspire a se tornar moeda global precisa antes ser conversível. Uma moeda conversível é aquela que pode ser trocada por outras moedas estrangeiras (ou por ouro, como foi o caso da libra esterlina no século XIX, sendo então o ouro trocado por outras moedas,), sem qualquer tipo de restrição ou limitação. Esta é uma condição necessária porque, na ausência de conversibilidade, investidores
estrangeiros não teriam interesse em manter a moeda em questão como um ativo importante em suas carteiras, pois teriam barreiras ou limites para resgatar suas aplicações na moeda que não é conversível e trocá-las por outras moedas.

Ocorre que a conversibilidade pode ter como efeito causar flutuações amplas e abruptas no valor da moeda: sendo possível trocar livremente a moeda em questão por outras moedas, podem ocorrer entradas ou saídas maciças e rápidas de capital (neste último caso, as chamadas fugas de capital), de acordo com as expectativas de valorização ou de desvalorização da moeda, desempenho da economia ou mesmo em função de fatores políticos. Porém, a estratégia chinesa de desenvolvimento vem empregando como um dos seus instrumentos, desde o seu início, o controle do valor do renminbi, como forma de garantir condições favoráveis ao seu progresso industrial. Na prática, isto significou um período de renminbi fortemente desvalorizado entre 1990 e meados dos anos 2000 (o Fundo Monetário Internacional FMI estima algo como 20-40% no início dos anos 2000), seguido por um período de valorização suave entre 2005 e 2015, sendo que ao final deste período a moeda deixou de estar desvalorizada em relação ao dólar (ainda segunda o FMI). O renminbi teria atingido seu valor mais elevado em 2022, para voltar a se mostrar desvalorizado desde então, ainda que esteja acima do seu patamar nos anos 1990-2000.

O que isto significa? Significa que a China vem administrando a sua moeda de acordo com o desempenho de sua indústria e as condições de sua economia. Manteve-a desvalorizada nas fases iniciais de sua industrialização, valorizou-a à medida que a aceleração do seu crescimento gerou pressões inflacionárias (tornando com isso as importações mais baratas e, assim, moderando a inflação), porém na medida suficiente para não comprometer o
desemprenho de sua indústria exportadora (pois um renminbi muito apreciado significaria exportações chinesas muito caras). Após a pandemia, paralelamente ao agravamento das restrições norte-americanas e europeias às importações chinesas, a China voltou a desvalorizar o renminbi, para apoiar a competitividade de sua indústria no mercado mundial.

Por conseguinte, adotar a conversibilidade para tentar tornar o renminbi uma moeda global, competindo com o dólar e abrindo mão, portanto, do controle do seu valor seria um grave erro, ainda mais neste momento de restrições econômicas às exportações chinesas por Estados Unidos e Europa. Por sinal, a experiência histórica mostra que, apenas sob condições francamente favoráveis e com muito cuidado, os países tornam suas moedas conversíveis. Os dois principais exemplos disso são o Reino Unido e os Estados Unidos.

O Reino Unido apenas adotou a conversibilidade da libra em 1821, apesar de a Revolução Industrial que colocou a economia do país na liderança mundial ter se desenvolvido desde o final do século XVIII e o final das Guerras Napoleônicas ter acontecido em 1815. Para se ter uma ideia, por volta de 1820 o produto interno bruto (PIB, a soma de todos os bens e serviços produzidos em uma economia em um ano) do Reino Unido era aproximadamente 50% maior do que o da França, seu principal competidor naquele momento. Já os Estados Unidos adotaram a conversibilidade do dólar em 1944 no acordo de Bretton Woods, quando as economias da Europa e do Japão (seus possíveis competidores) estavam devastadas pela Segunda Guerra, embora a produção industrial norte-americana país tenha superado a do Reino Unido e se tornado a maior do mundo ainda em 1880.

Ao contrário do que afirmou o economista que citei no começo deste artigo, a China possui sim uma estratégia clara e coerente para a sua moeda e sua indústria. Por isso não está tentando fazer o renminbi suplantar o dólar como moeda global.

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