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Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

O Acirramento da Competição pelo Comércio Mundial


Ronaldo Fiani


No artigo da semana passada procurei mostrar que a estratégia chinesa de desenvolvimento tem como um dos seus principais instrumentos, desde o seu início, o controle do valor do renminbi, tendo em vista garantir condições favoráveis ao seu progresso industrial. Verificou-se um período de renminbi significativamente desvalorizado entre 1990 e meados dos anos 2000 (como vimos na semana passada, o Fundo Monetário Internacional FMI estima algo como 20-40% no início dos anos 2000), seguido por um período de valorização de forma suave entre 2005 e 2015. Ao final deste período a moeda deixou de estar desvalorizada em relação ao dólar (ainda de acordo com o FMI). O renminbi alcançaria seu valor mais alto em 2022, para voltar a se mostrar desvalorizado desde então, ainda que esteja acima do seu patamar nos anos 1990-2000.

Expliquei no artigo da semana passada que a China vem administrando a sua moeda de acordo com o desempenho de sua indústria e as condições de sua economia. Desvalorizou-a nas fases iniciais da industrialização, valorizou-a à medida que seu crescimento gerou pressões inflacionárias (tornando com isso as suas importações mais baratas para moderar a inflação), o suficiente para não prejudicar o desemprenho de sua indústria exportadora (um renminbi muito valorizado tornaria as exportações chinesas muito caras).

Com o fim da pandemia, a China retornou à política de desvalorizar o renminbi, reforçando a competitividade de sua indústria no mercado mundial. Contudo, em função do foco do último artigo, a falta de interesse da China com relação à possibilidade de tornar o renminbi uma moeda global, desbancando o dólar, deixei de lado fatos também importantes para explicar a administração chinesa do valor do renminbi: o desempenho da indústria chinesa, por um lado, e a estratégia da China de ocupação do mercado mundial, por outro.

Um dos problemas em qualquer processo de industrialização é justamente o surgimento de capacidade produtiva ociosa na indústria. Como o próprio nome indica, capacidade produtiva ociosa nada mais é do que a existência de capacidade produtiva que não é utilizada, porque não há demanda para os seus produtos. Não se trata aqui de problemas técnicos que impedem a empresa de produzir: trata-se simplesmente do fato de que não há demanda para seus produtos e, assim, uma parte de suas máquinas, equipamentos e instalações fica ociosa.

O surgimento de capacidade ociosa na indústria acontece tanto em processos de industrialização, como em economias já desenvolvidas, sempre que a pressão competitiva leva as empresas a investirem mais do que deveriam. Isto funciona mais ou menos assim: com a demanda aquecida, ou seja, com demanda superando a oferta, as empresas iniciam uma espécie de corrida por investimentos, de forma a expandir sua capacidade de produção. Se não
investissem, correriam o risco de perder mercado para competidores que expandissem suas capacidades produtivas mais rapidamente. A consequência dessa corrida é um excesso de investimentos e o surgimento de capacidade ociosa, o que significa que as empresas investiram, mas não vendem como deveriam. Isto resulta em custos de investimentos sem contrapartida em receita de vendas, portanto, causando queda de lucros e, em muitos casos, prejuízos.

Ocorre que, em vários casos, como mostram as referências clássicas em economia industrial, esta é uma estratégia deliberada das empresas, principalmente de grandes empresas que têm mais recursos para bancar capacidade ociosa, visando a dificultar a entrada de competidores: com capacidade ociosa, elas atendem a qualquer expansão da demanda imediatamente, reduzindo as chancas de um competidor encontrar espaço no mercado.
Um recurso convencional para que os países enfrentem capacidade ociosa na indústria é a desvalorização cambial, pois ela torna seus bens e serviços mais baratos no mercado mundial, o que pode ampliar suas exportações, aumentando a produção de suas empresas e, com isso, reduzindo a ociosidade de suas máquinas e equipamentos. A China não recorreu incialmente à tática de desvalorização cambial no primeiro episódio de capacidade ociosa significativa, que atingiu a indústria pesada chinesa (especialmente aço, carvão, alumínio e cimento) aproximadamente nos anos 2014-2016. Naquele momento adotou-se uma política denominada “Reforma Estrutural do Lado da Oferta”, que estimulou a consolidação das empresas no setores afetados, isto é, aquisições e fusões de empresas, de forma a eliminar capacidade produtiva ociosa.

Já a nova onda de capacidade produtiva ociosa desde 2022 vem tendo como resposta a tática da desvalorização cambial. Esta nova onda de capacidade ociosa é importante, especialmente porque, desta vez, os setores atingidos envolvem segmentos de tecnologia mais sofisticada: veículos elétricos, baterias de íons de lítio, células fotovoltaicas, além de material de construção e maquinaria. Uma parte desta ociosidade se explica pela crise do setor imobiliário, que afeta a construção civil.

Outra parte, porém, pode ser explicada por excesso de investimentos (que vimos ser comum em ciclos expansivos) e pelas restrições às importações chinesas por parte dos Estados Unidos e Europa. Mas há suspeitas também de que se trate também de uma estratégia deliberada de criar excesso de capacidade produtiva como limitação à entrada de competidores. Estas suspeitas, juntamente com as barreiras impostas pela Europa e Estados Unidos e a
desvalorização do renminbi sugerem que o ambiente no comércio internacional vai se tornar cada vez mais agressivo e difícil.

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