Edição: domingo, 30 de novembro de 2025

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

A Herança Pesada da Globalização


Ronaldo Fiani


É comum vermos analistas, alguns economistas e colunistas na imprensa apresentarem as tendências protecionistas e nacionalistas em crescimento no mundo como uma onda de irracionalidade, que estaria desmontando o mundo eficiente e progressista da globalização. Infelizmente, não é assim. Essas tendências são consequência de como a globalização aconteceu nos últimos 35 anos. Por globalização estou entendendo aqui a integração comercial e financeira que aconteceu depois do colapso do mundo socialista, no final do anos 1980 e início dos anos 1990.

Entre 1990 e meados dos anos 2000, o cenário da globalização ainda era aparentemente favorável. A expansão nas cadeias produtivas globais, resultado do processo de liberalização comercial que facilitou o trânsito de mercadorias mundo afora, com o deslocamento da produção mais simples para países com mão de obra mais barata e regulamentação menos rigorosa (especialmente na Ásia) proporcionou um afluxo de mercadorias baratas, que inundou o mundo e reduziu significativamente a taxa de inflação no globo, ao expandir muito a oferta de bens.

Para se ter uma ideia, a taxa média anual de inflação se situava em torno de 15% a 20% nos anos 1980, caiu para 5-10% nos anos 1990, e nos anos 2000 e 2010 se situou em torno de 3-4%. Ainda que parte da redução nos anos 1990 se deva aos programas de estabilização da América Latina, boa parte da inflação baixa registrada a partir dos anos 2000 se deve à inundação de manufaturados baratos da Ásia, especialmente da China. Além de garantir uma inflação mais baixa, a expansão das cadeias produtivas para a Ásia também elevou muito a lucratividade das grandes empresas em setores como o automobilístico, eletrônico, tecnologia de informação, farmacêutico, grandes marcas comerciais de vestuário e calçados etc. Curiosamente, ao mesmo tempo vários países em desenvolvimento e mesmo desenvolvidos se desindustrializavam, o que levou ao desemprego, subemprego e à
formação de grandes bolsões de pobreza nas cidades, com aumento de criminalidade, abuso dedrogas, degradação de áreas urbanas etc.

Mas a globalização não foi apenas liberalização comercial, também foi integração financeira. Do lado financeiro, as taxas de inflação reduzidas (ainda que com flutuações) levaram à redução da taxa de juros (ainda que também com flutuações), como uma tendência do período. É claro que houve flutuações, com momentos de elevação das taxas, como antes do estouro da bolha das empresas de tecnologia no início dos anos 2000, ou na fase que antecedeu a crise de 2008; e momentos de redução significativa das taxas, como a redução histórica durante a pandemia da Covid-19.

Mas, se olharmos para o período como um todo, a tendência é claramente de redução. Por exemplo, a taxa de juros nunca mais sequer se aproximou novamente do valor de 8,25% ao ano em janeiro de 1990 cobrada dos fundos federais nos Estados Unidos (atualmente supera um pouco os 4%). Também no caso do euro, a taxa de juros (considerando a taxa das operações principais de refinanciamento do Banco Central Europeu) apresentou uma média bem baixa, de 1,87% ao ano entre 1998 e 2025, com um pico de apenas 4,75% em 2000.

Qual foi a consequência disso? Dinheiro barato para especular financeiramente. É um princípio convencional em economia que dinheiro barato estimula especulação financeira, pois empresas e indivíduos tomam emprestado com juros baixos, visando a aplicar em alternativas mais rentáveis; valorizando assim os ativos em que aplicam, estimulando mais especulação.

Por exemplo, além de financiar seus investimentos na Ásia, executivos de grandes empresas tomaram dinheiro barato para recomprar as ações de suas próprias empresas, o que elevou seus preços. Fizeram isto porque parte de sua remuneração está atrelada ao valor das ações de suas empresas e, ao fazerem isso, elevavam os seus bônus. Da mesma forma, fundos internacionais, grandes empresas e acionistas majoritários investiram em ações, propriedades imobiliárias na Flórida e na Califórnia, e até mesmo papéis de países que adotam taxas de juros elevadas, como o Brasil.

A combinação de desindustrialização com especulação financeira resultou no que vemos hoje: cidades com bolsões de pobreza e concentração de renda mundial em níveis nunca vistos (apesar dos efeitos positivos do crescimento chinês, que, como é claro, se limitam apenas à China). Em alguns casos, também se verifica de queda do salário real. Não é de se surpreender o crescimento de tendências protecionistas e nacionalistas mundo afora. Há uma herança pesada da globalização por trás disso, que vai ser difícil de reverter.

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