COLUNISTA
Ronaldo Fiani
Os leitores com certeza já ouviram o slogan que afirma que o “o agro é pop”. O objetivo é óbvio: valorizar o setor da economia que produz bens primários, isto é, produtos extraídos da natureza (como alimentos, matérias primas industriais etc.), frequentemente em estado natural, mas, de forma geral, pouco elaborados. Um primeiro fato a ser reconhecido é que toda economia de qualquer país possui um setor primário. A principal característica que diferencia os setores primários nos vários países é a sua importância, isto é, sua parcela na produção total da economia. Em alguns países, como o Japão, o setor primário representa algo em torno de apenas 1% do produto interno bruto (o PIB), a soma da produção anual de bens e serviços do país.
No caso do Brasil, a participação do setor primário estrito está em torno de 6,5%. Contudo, ao contrário do Japão, o Brasil possui toda uma cadeia produtiva voltada para a produção e a exportação de produtos primários, incluindo fertilizantes, defensivos, transporte etc. Se considerarmos a cadeia do agronegócio como um todo, a participação do setor primário se aproxima dos 25% do PIB brasileiro. A conclusão é que, ao contrário do Japão, o agronegócio possui uma importância expressiva na economia brasileira, respondendo por mais ou menos um quarto do PIB nacional, e também ajudando a balança comercial do país, pois precisamos exportar para bancar a
aquisição dos produtos importados de que necessitamos.
O problema é que, talvez em consequência do crescimento do agronegócio, a indústria foi abandonada, como se apenas o agro fosse suficiente para sustentar a economia brasileira, o que não é. Nenhum país com população numerosa e de grandes proporções geográficas, como o Brasil, conseguiu se desenvolver apenas com o agronegócio. A razão é simples. A produção de bens primários que caracteriza o agronegócio depende de características locais, tais como temperaturas anuais, solo, chuvas etc. Como resultado, as atividades do agronegócio tendem a se concentrar em determinadas regiões e, portanto, os benefícios tendem a também concentrar regionalmente, ainda que as cidades que compõem a rota de exportação (como os portos) sejam em alguma medida beneficiadas.
Esta concentração regional é agravada na medida em que, para ser competitivo internacionalmente, o agronegócio é intensivo em capital, ou seja, substitui mão de obra por máquinas e equipamentos, reduzindo muito a criação de empregos. Sendo intensivo em capital, a produtividade aumenta e os preços caem, o que é fundamental para competir de forma eficaz no mercado global.
Como resultado de tudo isso, as regiões sem vocação para o agro veem as suas cidades incharem, com habitações de baixíssima qualidade e uma população com empregos precários ou subempregos, algo que podemos observar em muitas cidades brasileiras, especialmente aquelas que constituíam centros industriais. Por sinal, o principal fator que agravou a situação nos grandes centros urbanos brasileiros que não estão ligados às regiões do agronegócio foi justamente a desindustrialização da economia brasileira, caracterizada pela queda da participação da indústria no PIB brasileiro.
De uma parcela em torno de 33% do PIB no inicio dos anos 1990, hoje a indústria não passa de 11% do PIB. Mais chocante do que a queda de importância da indústria é a indiferença com que esta queda vem sendo encarada no país. Nenhum país de grandes dimensões, com uma população numerosa consegue sobrevier com um desequilíbrio na sua estrutura econômica tão grave. O agro pode ser pop, mas está longe de ser tudo.
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