COLUNISTA
Ronaldo Fiani
A imprensa brasileira tem dado muita importância ao chamado BRICS Pay, o sistema de pagamentos do países que compõem o BRICS, que permite pagamentos internacionais entre os seus membros em suas moedas nacionais, sem recorrer ao dólar. Tem sido enfatizado o impacto que esse sistema pode ter sobre o papel do dólar como moeda global. Estas análises tem algum fundamento, afinal, embora o chamado G7 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Itália e Canadá) domine o comércio global de serviços (especialmente patentes), o chamado BRICS+ (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Arábia Saudita e Indonésia) empata na prática com o G7 quando se trata do comércio internacional de mercadorias.
Todavia, um outro evento não tem recebido a mesma atenção: o chamado “petroyuan”. O nome oficial da moeda chinesa é renminbi, contudo, sua unidade de conta é o yuan. Como se trata de um arranjo voltado para um tipo de uma transação, a imprensa internacional convencionou chamar o novo arranjo de “petroyuan”. Esse novo arranjo consiste em uma estrutura financeira que permite à Arábia Saudita receber yuans da China em troca do seu
petróleo, e converter os yuans que excedam suas compras da própria China em ouro, o qual fica depositado em cofres da bolsa de ouro de Xangai instalados na própria Arábia Saudita.
Esta estrutura de cofres foi anunciada em maio de 2025, mas a sua viabilização começou em 2023, quando China e Arábia Saudita fizeram um acordo de troca de moedas (o chamado swap cambial) de 50 bilhões de yuans (em torno de 7 bilhões de dólares), que permite que os dois países troquem suas moedas diretamente, sem usar os dólares que possuem em suas reservas. Isto significa o fim do dólar como moeda global hegemônica? A resposta parece ser negativa, ao menos no curto prazo. Embora a China tenha se tornado recentemente o maior importador de petróleo, a grande maioria dos países ainda compra e vende petróleo em dólares. Mais importante ainda, há muita resistência fora da China em aceitar a moeda chinesa em trocas internacionais, dadas as restrições que aquele país adota com relação a movimentações capitais cruzando suas fronteiras. Assim, ainda que o arranjo entre China e Arábia Saudita reduza a demanda por dólares de um importante importador, não é suficiente para desbancar o dólar de sua posição global.
Mas a principal importância deste arranjo entre chineses e sauditas é política, e em um sentido muito mais sério do que aquele usualmente considerado pela imprensa, que é o de uma importância “simbólica”, por representar uma aproximação da China com um tradicional aliado norte-americano. Para entendermos porque a importância é muito mais do que simbólica, precisamos voltar um pouco no tempo. Em 1971, o então presidente norte-americano Richard Nixon acabou com a paridade do dólar com o ouro, então fixada em 35 onças por dólar. A inflação tinha corroído o valor do dólar, e os países vinham aproveitando a paridade fixa para trocar seus dólares por ouro, o que levou a uma situação insustentável. O fim da paridade em relação ao ouro abalou a confiança no dólar, que naquele momento respondia por aproximadamente 80% das reservas mundiais.
Em 1973, após o primeiro choque de petróleo os Estados Unidos estabeleceram um arranjo político e econômico com a Arábia Saudita, em que os norte-americanos assumiram o compromisso de defender militarmente e politicamente os sauditas, enquanto a Arábia Saudita se comprometia a não apenas estabelecer o preço do petróleo em dólares, mas a somente aceitar pagamentos pelo produto em dólares. Além disso, os sauditas se comprometiam a investir seus saldos em dólares em ativos financeiros nos Estados Unidos, principalmente em títulos do tesouro norte-americano.
Assim surgiram os chamados “petrodólares”. Mais importante ainda, a partir desta iniciativa no início dos anos 1970 somente seria possível para qualquer país adquirir petróleo com dólares, o que forneceu um incentivo decisivo para que os países importadores demandassem e mantivessem dólares em suas reservas internacionais, apesar de os dólares não serem mais convertidos em ouro. Portanto, a aceitação pelos sauditas do yuan em pagamento pelo seu petróleo rompe com um arranjo que durante 50 anos pautou não apenas o mercado global de petróleo, mas também a dinâmica do financiamento do déficit público norte-americano e a valorização dos
seus ativos financeiros. Ainda que não signifique o fim imediato do dólar como moeda global, é uma mudança fundamental, a qual devemos acompanhar com atenção.
Vou fazer uma pausa de 15 dias, devendo retornar na última semana de fevereiro.
Aproveito para desejar um bom carnaval aos meus leitores.
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