COLUNISTA
Ronaldo Fiani
No meu último artigo do ano passado (Diário de Petrópolis, 14 de dezembro 2025, “Por Que As Tarifas de Trump Não Acabaram com o Mundo?”), observei que 2025 terminava com um certo anticlímax: a imprensa e muitos economistas fizeram crer que o mundo estava acabando em janeiro daquele ano, quando Donald Trump anunciou as primeiras tarifas. Vários economistas (alguns laureados com o Prêmio Nobel) previram inflação nos Estados Unidos (pelo aumento do custo dos produtos importados) e ruptura do comércio internacional, com a queda abrupta do volume de comércio. Contudo, nada disso aconteceu. Naquele artigo expliquei as razões pelas quais as tarifas não tiveram o impacto devastador que alguns esperavam: grandes empresas administram o comércio global.
Entretanto, terminei o artigo afirmando que, se estamos procurando riscos de crises, deveríamos olhar para outro lado: o sistema financeiro dos Estados Unidos. Crises dramáticas dificilmente são provocadas por problemas em transações comerciais, que, como expliquei no artigo, apresentam relativa estabilidade no curto prazo, exceto em casos realmente extremos (como a pandemia da Covid-19). Crises de grandes proporções, que eclodem repentinamente e arrastam o mundo sempre começam no sistema financeiro, especificamente no sistema financeiro norte-americano. Foi assim em 1929 com a Grande Depressão, e em 2008 com a Grande Recessão.
Tivemos várias crises financeiras internacionais após a Segunda Guerra, como a Crise Latino-americana de 1982, a Crise Asiática em 1997 e a Crise da Zona da Zona do Euro em 2010. Nenhuma delas se tornou global, porque nenhuma delas começou nos Estados Unidos. A ocorrência de uma crise financeira nos Estados Unidos é condição necessária, ainda que não suficiente para o surgimento de uma crise global, como a chamada Grande Recessão em 2008.
Para que uma crise iniciada no sistema financeiro dos Estados Unidos se torne global, ela precisa ser profunda e ampla: crises sem impacto significativo em outros setores da economia norte-americana, como a chamada “Bolha das Pontocom” de 2001, que atingiu empresas de tecnologia, não têm força suficiente para isto. Por que somente as crises iniciadas no sistema financeiro dos Estados Unidos têm potencial, a princípio, para se tornarem crises globais? A razão é simples: como o dólar é a moeda global, isto é, a moeda aceita no pagamento de transações comerciais e obrigações financeiras internacionais, mesmo que elas não envolvam os Estados Unidos, empresas e bancos de outros países mantém reservas expressivas em dólares, que estão aplicadas em ativos financeiros norte-americanos. Desta forma, quando há uma crise ampla e profunda nos Estados Unidos, estes ativos perdem valor, o que afeta negativamente estas empresas e bancos, disseminando a crise para além das fronteiras norte-americanas. Como escrevi acima, a condição para que isto aconteça é que a crise financeira nos Estados Unidos seja ampla e profunda, de forma a impactar os ativos norte-americanos como um todo e, assim, afetar as reservas em dólares de países e grandes empresas mundo afora.
Há motivos concretos de preocupação com o sistema financeiro dos Estados Unidos neste momento. A indicação disso foi a decisão em 19 de fevereiro de uma gestora de crédito privado (private credit firm), chamada Blue Owl, que limitou o saque de seus clientes, bloqueando retiradas individuais totais no seu fundo OBDC II. Antes os aplicadores podiam sacar todos os seus recursos a cada trimestre. Agora, somente poderão receber seu dinheiro de
volta na medida em que a empresa disponha de recursos para pagar. Este bloqueio de resgastes recebeu eufemisticamente o nome técnico de “modelo de retorno do capital”.
Limitações nos resgates, também chamadas de forma eufemística de gating, em si mesmas não são novidade. Elas são previstas contratualmente. Sua utilização também não é inédita: bloqueios a retiradas foram adotados durante a crise que o setor já atravessou em 2022-2023. Mas os bloqueios eram então anunciados como temporários, e foram suspensos quando a crise foi sanada. Agora a situação parece mais grave, não apenas porque a Blue Owl adotou os bloqueios definitivamente, mas também porque eles têm sido acompanhados por liquidações de ativos em carteira com desconto do valor.
Na raiz destes problemas estão as características dos chamados “bancos sombra” (do inglês shadow banking), entidades financeiras que, apesar de agirem em grande medida como os bancos tradicionais, não estão sujeitas à regulação e supervisão que atua no caso destes bancos. Particularmente, elas não recebem depósitos como os bancos comerciais, o que justifica a sua denominação nos Estados Unidos como “instituições financeiras não depositárias” (em inglês: NonDepository Financial Institutions). O fato destas instituições não estarem sujeitas ao controle de um banco central confere aos bancos sombra, como é o caso de gestoras de crédito privado como a Blue Owl, uma liberdade muito maior para assumir operações arriscadas. Em três artigos publicados no Diário de Petrópolis, ainda em maio e junho de 2023 (O Mundo Desenvolvido Está a Caminho de uma Crise Financeira? Parte 1, 2 e Conclusão) procurei chamar a atenção para o problema que este tipo de instituição financeira poderia acarretar.
O que está havendo então no segmento de gestores de crédito privado nos Estados Unidos? Veremos no próximo artigo.
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