COLUNISTA
Ronaldo Fiani
Vimos no artigo passado que crises internacionais, que eclodem repentinamente e arrastam o mundo sempre começam no sistema financeiro norte-americano. Foi assim em 1929 com a Grande Depressão, e em 2008 com a Grande Recessão. Vimos também que para que uma crise iniciada no sistema financeiro dos Estados Unidos se torne global, ela precisa ser profunda e ampla: crises sem impacto significativo em outros setores da economia daquele país não têm força suficiente para se tornarem globais. Como o dólar é a moeda global, isto é, a moeda aceita no pagamento de transações comerciais e obrigações financeiras internacionais (mesmo que elas não envolvam os Estados Unidos), empresas e bancos de outros países mantêm reservas expres sivas em dólares aplicadas em ativos financeiros norte-americanos, tornando-se vulneráveis a crises financeiras que afetem o valor dos ativos naquele país Afirmei então que há sinais de problemas no sistema financeiro norte-americano. Estes problemas estão relacionados à forma como o sistema financeiro daquele país evoluiu depois da Grande Recessão de 2008. A crise iniciada naquele ano afetou muito os grandes bancos dos Estados Unidos, que reduziram a amplitude das suas operações de crédito desde então, preferindo emprestar para outras instituições não bancárias, os chamados “bancos sombra”, que passaram a agir na verdade como intermediários dos grandes bancos nos empréstimos ao setor privado, especialmente nos segmentos mais arriscados.
Os grandes bancos acreditaram desde então estar transferindo os riscos para os bancos sombra, protegendo-se da possibilidade de inadimplência no setor privado. O problema é que, na medida em que os grandes bancos retraíram a oferta de crédito para o setor privado, a oferta de crédito por parte dos bancos sombra cresceu, ou, talvez melhor dizendo, explodiu: de 500 bilhões de dólares em 2020, saltou para estimados 3 trilhões de dólares no início deste anos.
Ou seja, um aumento de aproximadamente 500% em 5 anos!
Ocorre que, de 2020 até agora, o crescimento da economia norte-americana medido em termos do aumento do produto interno bruto nominal (ou seja, a soma de todos os bens e serviços produzidos nos Estados Unidos, sem descontar a inflação) foi aproximadamente de 43%, o que está muito longe dos 500% de aumento na oferta de crédito pelos bancos-sombra.
Ou seja, o crédito fornecido pelos bancos sombra da economia norte-americana cresceu muito mais rapidamente do que a geração de riquezas para pagar a dívida resultante. Por isso é um fato econômico reconhecido por economistas que estudam o papel do sistema financeiro em crises, que um crescimento muito acelerado na oferta de crédito invariavelmente envolve a expansão de créditos de baixa qualidade, se a economia não estiver crescendo de forma a justificar a ampliação do crédito naquelas proporções. Com efeito, os dados sobre o crédito fornecido pelos bancos-sombra são preocupantes. Estima-se que 30% de todo o crédito do que é chamado nos Estados Unidos below-investment-grade companies, ou seja, devedores de alto risco, está nos balanços dos bancos sombra.
Trata-se de um percentual elevado, ainda mais quando se considera que os recursos daqueles que aplicaram seu dinheiro nos bancos sombra não dispõem de garantia: lembre-se que não há depositantes nos bancos sombra como nos bancos tradicionais, por isso eles não estão sujeitos aos mesmos controles que os bancos centrais mantém com relação aos bancos tradicionais, nem às garantias que os depositantes em bancos tradicionais têm em relação aos seus depósitos.
O leitor de estar se perguntando se, na verdade, isso não seria positivo: afinal, os créditos arriscados estão fora dos bancos tradicionais. Estes bancos não estariam então protegidos? O problema é que os bancos comerciais tradicionais são credores dos bancos sombra, e o volume de crédito concedido é significativo: no terceiro trimestre de 2025, estima-se que os empréstimos dos bancos comerciais aos bancos sombra alcançou impressionantes 1,32 trilhão de dólares, em grande parte concentrados nos quatro maiores bancos norte-americanos.
Isso significa um vínculo importante entre estes dois tipos de instituições, pois estes empréstimos aparecem nos ativos dos bancos comerciais, ao mesmo tempo constando como passivos dos bancos sombra.
Portanto, o valor de uma parte importante dos ativos dos bancos comerciais norte-americanos depende da capacidade do segmento dos bancos sombra de honrar seus compromissos financeiros. Em caso de dificuldades com estes empréstimos, os ativos dos bancos comerciais que correspondem aos empréstimos aos bancos sombra (como as gestoras de crédito privado em dificuldades nos Estados Unidos) poderão se desvalorizar significativamente.
Além disso, há também um mecanismo indireto: se os bancos sombra começarem a liquidar seus próprios ativos, na tentativa de superar problemas de liquidez (o nome técnico para falta de dinheiro), isto pode provocar uma desvalorização geral nos ativos financeiros de que os bancos comerciais dispõem nos seus ativos, mesmo que não estejam vinculados a bancos sombra.
O Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) afirma que vem acompanhando a situação, e que os grandes bancos comerciais daquele país têm condições de enfrentar dificuldades. O problema é que é difícil avaliar o tamanho das dificuldades que podem acontecer, uma vez que a outra ponta, os bancos sombra, não é regulada e, assim, não se tem a dimensão dos problemas que podem vir.
É esperar para ver.
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