COLUNISTA
Ronaldo Fiani
No texto da semana passada, tratei dos impactos da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irã sobre as cadeias globais de valor. Vimos então que a guerra é muito ruim para as cadeias globais de valor. Agora, inverto o foco da análise: examino como essas cadeias influenciam o próprio conflito, sobretudo no que diz respeito à capacidade dos Estados Unidos maior potência militar do mundo de sustentar e ampliar seus esforços de guerra.
Para isto vou pedir ajuda de uma figura histórica muita familiar para os franceses, ainda que pouco conhecida no Brasil: Antoine Augustin de Montchrestien (15751621). Montchrestien foi um dramaturgo e economista francês (combinação que se tornou rara desde então), que reunia o talento para criar peças dramáticas com uma percepção aguçada dos fatos econômicos. Após um duelo com consequências fatais em 1605, ele fugiu para a Inglaterra,
onde teve a oportunidade de observar o desenvolvimento do comércio e das manufaturas naquele país, extraindo daí conclusões muito importantes, dois séculos antes da Inglaterra se tornar a maior potência econômica e militar do mundo no século XIX.
As principais conclusões a que ele chegou foram resumidas no livro Traité de l’Économie Politique (Tratado de Economia Política), publicado em 1615. O livro contém várias ideias que permanecem modernas, mas o ponto que nos interessa aqui é que Montchrestien afirma que a indústria é a base da riqueza de um país, e sem ela não apenas uma nação seria pobre, como não teria os recursos necessários para competir militarmente com outros países.
Assim chegamos à atual guerra. Desde o início das hostilidades em 28 de fevereiro, os Estados Unidos estão envolvidos no que se chama “operações cinéticas de grande intensidade”, que utilizam munições guiadas de alta precisão, interceptadores e drones. O problema é que o estoque deste tipo de equipamento, bastante sofisticado, já se encontrava relativamente baixo antes mesmo de a guerra começar pelo fornecimento durante anos para a Ucrânia, e os Estados Unidos não estão conseguindo acelerar rapidamente a sua produção. A razão disto é que sua indústria foi terceirizada para outros países.
Esta terceirização foi consequência de uma estratégia deliberada, que vinha pregando uma separação entre a inovação, por um lado, e a produção por outro, no que dizia respeito à base industrial de defesa norte-americana. Ou seja, enquanto os Estados Unidos desenvolveram a excelência na capacidade de produzir inovações tecnológicas de uso militar em seus laboratórios, a produção dos componentes foi distribuída pelas cadeias globais de valor. Percebia-se então duas vantagens nisso, ambas resultantes de uma maior especialização: os Estados Unidos se especializavam na etapa da inovação, aumentando sua expertise e capacidade tecnológica, e os produtores internacionais ampliavam a escala de produção, reduzindo os custos.
Todavia, com isso perdeu-se não apenas a capacidade de acelerar significativamente a produção em caso de necessidade, dada a resposta lenta de fornecedores que se encontram em outros países, mas também o conhecimento que se adquire quando um produto novo começa a ser efetivamente produzido, que é o chamado conhecimento de chão de fábrica, o qual muitas vezes permite ajustes importantes nas características das inovações. Com essa estratégia, os Estados Unidos construíram ao longo dos anos uma vantagem competitiva em design e inovação, mas também passaram a sofrer com gargalos na escala produtiva. Um exemplo claro desses gargalos atualmente é o caso da ácido sulfúrico, insumo essencial para a produção de microcircuitos e cobre, cuja oferta vem sendo afetada pela guerra, em função dos problemas para a obtenção do enxofre, uma vez que 50% do comércio marítimo
global do insumo passa pelo estreito de Ormuz. Um dos problemas que estão surgindo com as dificuldades de oferta diz respeito ao ácido sulfúrico ultrapuro (chamado electronic grade), que é indispensável para a limpeza dos wafers de silício. Sem ele, a produção de microchips para mísseis guiados de precisão e drones não pode ser acelerada.
Vale considerar também o relatório do Departamento de Contabilidade do Governo dos Estados Unidos, intitulado Defense Industrial Base: Actions Needed to Address Risks Posed by Dependence on Foreign Suppliers (Base Industrial de Defesa: Ações Necessárias para enfrentar os Riscos da Dependência de Fornecedores Externos). O relatório aponta os riscos resultantes do fato de que o Departamento de Defesa norte-americano utiliza mais de 200.000 fornecedores para obter o armamento de que necessita e, segundo o relatório, não tem sequer clareza acerca de quantos deles são norte-americanos e quantos são estrangeiros, o que resulta em uma grande vulnerabilidade a interrupções no fornecimento.
Resumindo: no artigo da semana passada, vimos que guerras são muito ruins para as cadeias globais de valor. Mas cadeias globais de valor também são muito ruins para as guerras.
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