Edição: domingo, 29 de março de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

A Guerra e o Agronegócio

Uma questão que deveria estar nos preocupando a todos é como a atual guerra vai afetar o chamado agronegócio no Brasil. Afinal, o agronegócio responde por algo em torno de 25% do PIB brasileiro (o produto interno bruto, soma de todos os bens e serviços produzidos pela economia em um ano), o que significa que seu dinamismo tem um impacto significativo no crescimento do produto interno. Além disso, o nosso saldo no balanço comercial depende de forma expressiva das exportações do agronegócio, que responderam por 48,5% do valor total exportado no ano passado. Ou seja, o agronegócio afeta não apenas por boa parte do crescimento da economia, mas também o equilíbrio das contas externas do país.

Desta forma, qualquer impacto adverso no agronegócio brasileiro acaba afetando de forma importante a economia do país. Isto é uma consequência inevitável da chamada reprimarização da economia brasileira, ou seja, o processo de declínio progressivo da importância da indústria nacional. Todavia, conforme mencionei em artigos anteriores, após um ciclo de valorização das commodities, ou seja, um ciclo de elevação internacional dos preços dos produtos primários (matérias-primas, minerais e produtos agropecuários pouco elaborados) causado pelo crescimento chinês entre 1990 e 2010, há anos tendências negativas para os preços das commodities agrícolas vêm se verificando, tendências estas que serão agravadas pela atual Guerra do Golfo Pérsico. Estas tendências afetam tanto a receita de exportações quanto os custos do agronegócio.

Os ciclos de valorização das commodities apresentam elevada correlação com fases expansivas do comércio mundial. Ou seja, quando o comércio mundial se expande, os preços das commodities se elevam, pois a demanda por elas aumenta, e o preço das commodities é determinado pela demanda em vez de ser fixado pelos próprios produtores, como é o caso dos produtos industrializados, especialmente daqueles produtos industriais tecnologicamente mais sofisticados, que são produzidos por pouco produtores, que por isso têm liberdade para fixar o seu preço. O problema é que a taxa de crescimento do comércio internacional de produtos agrícolas (excluindo petróleo e minerais) na verdade vem decaindo há anos. Após um crescimento de 3,8% ao ano no período entre 1996 e 2005, em função da rápida industrialização chinesa, a taxa declinou ligeiramente para 3,4% entre 2006 e 2015, garantindo que a demanda por commodities agrícolas se sustentasse mesmo com a crise de 2007; mas tornou a diminuir, e neste caso de forma significativa para 2,1% ao ano no período 2016-2026. As projeções mais otimistas com a guerra indicam um crescimento no comércio total de mercadorias de apenas 1,9%, caso o conflito se resolva rapidamente. O problema é que especialistas estimam que, dados os danos na infraestrutura dos países da região, depois do final da guerra ainda será necessário um ano ou dois, para voltar à normalidade.

Mas a rentabilidade do agronegócio depende não apenas das suas receitas de exportação, mas também dos seus custos, que devem se elevar expressivamente agora. Afinal, os lucros são o resultado da diferença entre a receita de vendas e os custos. Vários insumos que utilizam petróleo e gás natural na sua fabricação estão apresentando elevação de custos, não apenas pelo bloqueio do Estreito de Ormuz, mas principalmente pela destruição da infraestrutura de produção, armazenamento e transporte de petróleo e gás natural dos países da região. Isto está afetando severamente o preço de vários insumos importantes para o agronegócio. Este é o caso, por exemplo, da Ureia, um insumo fundamental na produção de fertilizantes. O preço da ureia tem sido afetado por conflitos, já tendo sido impactado antes, no início da Guerra da Ucrânia, quando se elevou do seu valor usual, que flutuava então entre US$ 300 e US$ 350 a tonelada, e que alcançou o recorde histórico de US$ 1.050 a tonelada em abril de 2022. Posteriormente o preço da ureia se estabilizou entre US$ 350 e US$ 420 a tonelada. A partir do bloqueio do Estreito de Ormuz e dos ataques às infraestruturas de outros países produtores de petróleo e gás natural, o preço da ureia voltou a subir e, quando escrevo este artigo, o preço oscila entre US$ 660 e US$ 684 a tonelada, um aumento médio em torno de 75%! A razão disto é simples: gás natural constitui em torno de 80% do custo de produção da ureia, e a infraestrutura de gás natural dos países produtores naquela região foi severamente afetada pela guerra, em particular pelos danos causados à infraestrutura em Ras Laffan no Catar, que responde por nada mais, nada menos do que cerca de 20% do fornecimento global de Gás Natural Liquefeito (GNL). Isto, sem mencionar a elevação nos custos dos fretes e nos seguros, com o bloqueio do Estreito de Ormuz.

No que diz respeito aos insumos agrícolas, contudo, o problema não se restringe à ureia: muitos defensivos agrícolas além de empregarem moléculas derivadas de petróleo na sua produção, também demandam muita energia para a sua fabricação. Na verdade, até o preço das máquinas agrícolas deve ser afetado, pois, por exemplo, nenhuma máquina fabricada nos últimos 10 anos (tratores de alta potência, colheitadeiras, pulverizadores autopropelidos, plantadeiras de precisão e drones) opera sem um microcircuito instalado, e os microcircuitos estão começando a ser severamente afetados pela guerra: por exemplo, o Catar fornece 1/3 do hélio indispensável para resfriar os wafers de silício durante a fabricação dos microcircuitos na mesma instalação de Ras Laffan. Os ataques àquela instalação e o bloqueio do Estreito de Ormuz vêm afetando a oferta internacional daquele gás, e do enxofre, outro insumo utilizado nos microcircuitos.

Todo este quadro é muito preocupante, pois hoje não apenas o saldo comercial nas transações com o exterior, mas o próprio dinamismo da economia brasileira depende do agronegócio, depois que o país renunciou à indústria.

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