COLUNISTA
Ronaldo Fiani
Um dos conceitos econômicos mais importantes é o conceito de liquidez. Liquidez é uma propriedade que os ativos possuem em maior ou menor grau: ela é a capacidade de vender um ativo com rapidez, sem que ele sofra uma desvalorização apreciável. Quanto mais difícil a venda de um ativo, maior a necessidade de reduzir o seu valor para vendê-lo rapidamente. Quando o ativo possui liquidez elevada, ou como se diz, “é muito líquido”, conseguimos vender o ativo rapidamente sem reduzir o seu preço.
Desta forma, imóveis em geral possuem liquidez reduzida, pois usualmente levamos meses para vender um imóvel, a menos que seu valor seja muito reduzido. Já ações de grandes empresas normalmente são bem mais líquidas, podendo ser vendidas sem redução significativa de valor. Sendo assim, o ativo mais líquido, por definição, é o próprio dinheiro. Por isso, quando há muito dinheiro disponível no mercado financeiro buscando aplicações, diz-se que a oferta de liquidez é elevada, ou, mais simplesmente, que o mercado está com muita liquidez. Caso contrário diz-se que a oferta de liquidez é pequena, ou que o mercado está com pouca liquidez.
Há, portanto, uma demanda de liquidez por aqueles que precisam tomar emprestado, sejam eles empresas privadas, famílias ou o governo (este último por meio de leilões de títulos públicos), que deve ser atendida por uma oferta de liquidez proporcionada por investidores que desejam aplicar seu dinheiro. A liquidez do mercado é determinada pela comparação relativa entre demanda e oferta: se a oferta é maior do que a demanda, o mercado tem muita liquidez, se ocorre o contrário, o mercado tem pouca liquidez.
O leitor pode estar se perguntando por que a liquidez é importante. Inicialmente, porque é o nível e liquidez que determina a taxa de juros. Como explicou John Maynard Keynes (1883-1946), o maior economista do século XX, a taxa de juros nada mais é do que o aquilo que precisa ser pago para as pessoas e as empresas renunciarem à liquidez que o dinheiro representa. Quanto mais elas relutam em renunciar à liquidez, maior a taxa de juros e, desta forma, maior o custo para as empresas, o governo e as famílias que desejam tomar dinheiro emprestado. Além disso, e de forma ainda mais importante, quando a economia entra em crise, os agentes (empresas e pessoas) que possuem liquidez se retraem, em geral por causa das falências que as crises econômicas provocam, o que acarreta uma crise de liquidez no mercado financeiro, que só agrava a situação. Desta forma, a liquidez do mercado é um indicador importante acerca da situação da economia. Ocorre que hoje a economia norte-americana vive uma situação nebulosa em relação à sua liquidez.
O problema está no fato de que boa parte da liquidez da economia dos Estados Unidos é fornecida por bancos centrais de países estrangeiros, que utilizam os dólares que recebem das exportações para aquele país para aplicações em títulos do governo norte-americano. Porém, desde a adoção de sanções contra a Rússia na Guerra da Ucrânia a partir de 2022, dado o congelamento de ativos russos, os bancos centrais de países estrangeiros, especialmente China, Índia e Turquia vêm reduzindo suas aplicações em títulos do governo do Estados Unidos (uma das razões para a valorização do ouro nos quatro últimos anos).
Em razão disto, a oferta de liquidez pelos bancos centrais de países estrangeiros (que era bastante estável) está sendo substituída pela oferta de fundos das Ilhas Cayman, um paraíso fiscal. Esta oferta de liquidez é muito volátil, pois possui caráter fortemente especulativo, o que tende a gerar a elevação da taxa de juros. Esta elevação da taxa de juros, por sua vez, impacta negativamente o custo para o governo dos Estados Unidos da emissão de títulos públicos, visando a financiar seu déficit fiscal, que deve fechar 2026 em torno de US$ 2 trilhões, algo próximo de 7% do PIB (o produto interno bruto do país, a soma de todos os bens e serviços produzidos em um ano). Para se ter uma ideia da dimensão do custo do déficit, o país gasta a cada ano aproximadamente 1 trilhão de dólares de pagamentos de juros aos credores da dívida.
Para diminuir o problema, o Banco Central norte-americano (o Federal Reserve, ou Fed) vem comprando mais ou menos US$ 40 bilhões de Treasury Bills (T-Bills) por mês dos bancos, que são os títulos públicos de prazo mais curto emitidos pelo Tesouro dos Estados Unidos, de forma a ampliar as reservas em dinheiro dos bancos comerciais do país, na esperança de que os bancos voltem a comprar títulos. O problema é que os bancos estão acumulando reservas (ou seja, não estão querendo renunciar à sua liquidez), e o dinheiro não está circulando.
Além disso, o Tesouro norte-americano vem acelerando a emissão de T-Bills além do que o Fed consegue absorver.
Vamos ficar de olho na liquidez do mercado norte-americano.
Veja também: