COLUNISTA
O impacto da guerra, ainda que ela termine em breve, é severo não apenas em termos de custos da energia (e não devemos esquecer que o fornecimento de gás natural também tem sido afetado), mas para toda uma série de segmentos das cadeias globais valor, especialmente (mas não somente) pelos problemas na oferta de petroquímicos. A razão é simples: a infraestrutura de outros países da região, que produzem vários insumos essenciais para as cadeias globais de valor, também foi destruída.
Há relatos de que os preços do polietileno já subiram em alguns casos entre 15% e 60%, o que impacta, entre outros, o segmento de embalagens e de partes de automóveis, com efeitos adversos também em vários outros bens de consumo; e os problemas não se limitam aos petroquímicos. O Qatar fornece 30% do gás hélio consumido no mundo, e seus preços já subiram em torno de 30%, o que tem repercussões negativas na litografia de semicondutores e na produção de fibras óticas. O preço do alumínio na Bolsa de Metais de Londres vem alcançando as maiores altas em 4 anos (em torno de 3.400 dólares a tonelada), dada a interrupção na oferta de produtores do Oriente Médio, que respondiam por aproximadamente 9% da oferta global.
Já mencionei em outro artigo (“As Cadeias Globais de Valor São Ruins Para as Guerras”, Diário de Petrópolis, 23 de março de 2026) os problemas no fornecimento de enxofre para produtores de ácido sulfúrico de alto grau de limpeza, indispensável para a produção de microcircuitos por fabricantes asiáticos, uma vez que 50% do comércio marítimo global do insumo passa pelo estreito de Ormuz. O principal problema diz respeito ao ácido sulfúrico ultrapuro (o chamado electronic grade), indispensável para a limpeza dos wafers de silício. Sem ele, a produção de microchips que são usados, por exemplo, para mísseis guiados de precisão e drones sofre transtornos.
O Brasil, apesar de ser um importante produtor de petróleo (está entre os 10 maiores do mundo), devido às suas limitações na capacidade de refino importa 10 a 15% da gasolina que consome, 25% do diesel e de 25% a 30% do gás liquefeito de petróleo (GLP), o popular gás de cozinha. Se somarmos a isso uma matriz de transportes baseada no transporte rodoviário, que acarreta um consumo de diesel maior do que seria o caso se a matriz fosse principalmente ferroviária, é possível imaginar os impactos adversos diretos que a guerra nos traz, isto é, impactos que a guerra provoca no fornecimento imediato de matérias-primas para o país (o leitor deve notar que, ainda que nem todo o combustível importado pelo Brasil passe pelo estreito, pois países como os Estados Unidos são um importante exportador para o Brasil, a alta internacional dos preços tende a afetar todas as procedências destes produtos).
Porém, há também outros impactos diretos, além da redução na oferta de petróleo e a consequente elevação do preço. O fechamento do estreito de Ormuz vem afetando a produção de Ureia, essencial para a produção de fertilizantes, pois Omã, Arábia Saudita e Qatar fornecem 30% da Ureia de que o país precisa: há relatos de que os preços nos portos já aumentaram 60% desde o início da guerra. Os problemas com o enxofre também afetam os fertilizantes brasileiros, essenciais para o bom desempenho do agronegócio, um dos pilares dos saldos comerciais do país.
Além dos impactos diretos, há também os impactos indiretos, ou seja, os impactos sobre produtores de manufaturados, cuja produção é importante para a economia brasileira. É o caso dos microcircuitos a que fiz referência acima, essenciais para a produção das indústrias automobilística e aeronáutica brasileiras, alguns dos poucos segmentos em que o país mantém sua competitividade.
Todos estes efeitos diretos e indiretos sobre a atividade econômica devem ser avaliados, inicialmente, do ponto de vista da sua sensibilidade, conceito que se refere ao tamanho e rapidez com que problemas oriundos da interdependência econômica (a dependência que resulta das relações econômicas com outros países) afetam e economia do país. Em outros termos, diante das instabilidade global, não apenas o Brasil, mas outros países fortemente afetados terão de avaliar sua sensibilidade a estes impactos. Por exemplo, a falta de capacidade de refino no Brasil, mencionada mais acima indica uma sensibilidade significativa a problemas na importação de combustíveis.
Em segundo lugar, estes efeitos diretos e indiretos devem ser avaliados do ponto de vista da vulnerabilidade do país, que é a possibilidade de que o país consiga mitigar estes efeitos adversos por meio de políticas de resposta adequadas: quanto menor a possibilidade de atenuar estes efeitos, maior a vulnerabilidade. Com o processo de esvaziamento industrial do país das últimas três décadas, a capacidade de mitigar estes efeitos substituindo oferta externa por produção interna se reduziu dramaticamente.
Tanto a sensibilidade quanto a vulnerabilidade são indicadoras da assimetria nas relações econômicas internacionais, assimetria esta que, conforme acabei de chamar a atenção, foi significativamente ampliada com o processo de desindustrialização brasileira. Agora temos sensibilidade elevada, muitas vulnerabilidades e é urgente começar a fazer algo a respeito.
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