Edição: domingo, 03 de maio de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

A Volta Desastrosa do Excedente de Mão de Obra


Ronaldo Fiani


Nos anos 1950 e 1960, países atrasados como o Brasil começaram a investir de forma concentrada no seu processo de modernização industrial. A opção pela industrialização (e pela urbanização que a acompanhava) se dava a partir de um diagnóstico compartilhado por pensadores que se tornariam os pioneiros da Economia do Desenvolvimento: Paul Rosenstein-Rodan (1902-1985), Arthur W. Lewis (1915-1991), Ragnar Nurkse (1907-1959) e, não menos importante, Celso Furtado (1920-2004). Este diagnóstico identificava como problema essencial das economias atrasadas o excedente de mão de obra no campo.

Esse excedente era composto por um número significativo de trabalhadores que não conseguia obter trabalho de forma estável no campo. Estes trabalhadores “sobravam” (daí o termo excedente de mão de obra) em relação às necessidade dos produtores rurais, e ficavam transitando entre as fazendas, prestando serviços eventuais (como o conserto de cercas, capina etc.) e sofrendo longos períodos de desemprego. Como sua produtividade era muito baixa, sua remuneração também era muito reduzida, o que diminuía a renda por habitante no campo. Uma vez que esses trabalhadores constituíam a maioria da população, pois, na primeira metade do século XX os países atrasados como o Brasil ainda eram essencialmente rurais, a renda por habitante média do país permanecia muito baixa.

A existência desse excedente de mão de obra gerava outros efeitos negativos, do ponto de vista do desenvolvimento econômico. Como o trabalho era abundante, os salários eram muito baixos, o que desestimulava a   modernização da produção agrícola a partir da introdução de máquinas e equipamentos mais modernos (ou, como os economistas de então gostavam de dizer, com a “intensificação do capital”). Sem a introdução de equipamentos e máquinas mais modernos, a produtividade continuava baixa e, assim, a renda dos trabalhadores permanecia reduzida.

Os pioneiros da Economia do Desenvolvimento apontavam como saída para esta situação, a modernização industrial destes países. Com a industrialização e a consequente urbanização, este excedente de mão de obra rural seria absorvido na indústria que se desenvolveria nestes países. Isso significaria empregos estáveis, com maior produtividade (pois empregariam técnicas mais modernas do que aquelas que utilizavam as fazendas) e, assim, maiores salários. O resultado seria maior renda para os trabalhadores e suas famílias. Como o grosso da população era rural, a transferência para as cidades com salários mais elevados acabaria por elevar a renda média da população, ajudando o país a superar a pobreza.

O processo aconteceu como os pioneiros previram: uma parcela significativa da população migrou do campo para a cidade, em busca de empregos com melhor remuneração. No caso brasileiro, em um século apenas (ao longo do século XX), a distribuição da população se inverteu: de 20% nas cidades e 80% no campo no início do século, alcançou 80% nas cidades e 20% no campo no final do século XX. Esta migração teve um efeito importante no campo: ela reduziu significativamente a oferta de mão de obra, o que obrigou o chamado agronegócio a se modernizar, introduzindo maquinário moderno na sua atividade, e se tornando intensivo em capital.

O desastre a que se refere o título deste artigo veio depois, a partir dos anos 1990, e foi mais grave do que o fato (já muito negativo por si mesmo) de que esta migração para zonas urbanas não foi acompanhada, no caso do Brasil e de outros países, de investimentos em habitação, educação, saúde etc., o que poderia ter sido feito a partir dos impostos gerados pelas novas indústrias. O desastre foi que, a partir da década de 1990, este projeto foi abandonado. Em vez de uma nova fase de desenvolvimento industrial, que abrangesse indústrias mais sofisticadas e investimentos em infraestrutura urbana, optou-se por abandonar a indústria à própria sorte, confiando que a liberalização comercial e financeira (a chamada globalização) resolveria todos os problemas.

Obviamente, não apenas a globalização não resolveu os problemas resultantes da urbanização, mas também deixou a indústria desprotegida em relação a países que adotaram políticas de desenvolvimento industrial coerentes, como a China. O resultado foi a desindustrialização, a redução da indústria nacional, como observamos há décadas no Brasil. A desindustrialização, por sua vez, reduziu drasticamente o emprego industrial, com o que surgiu um novo excedente de mão de obra no Brasil, desta vez nas cidades, com as mesmas caraterísticas de desemprego e emprego eventual precário que havia no campo no início do século XX. Estes trabalhadores apresentam baixa produtividade e baixa remuneração, e se aglomeram agora nas periferias, embora às vezes disfarçados de “empreendedores individuais”.

A diferença, contudo, é que estes trabalhadores agora demandam empregos estáveis bem remunerados, habitação, transporte, saúde e educação, não apenas para eles, mas também para seus filhos, ao contrário dos trabalhadores que se encontravam dispersos e isolados no campo no início do século XX.


A necessidade de solução é urgente, e sem indústria moderna não haverá solução.

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