COLUNISTA
Ronaldo Fiani
Os principais bancos norte-americanos vêm registrando lucros excepcionais com a Guerra do Golfo. De acordo com o The Banker, os seis maiores bancos dos EUA, a saber JPMorgan, Goldman Sachs, Bank of America, Morgan Stanley, Citigroup e Wells Fargo lucraram aproximadamente US$ 47 bilhões somente no primeiro trimestre de 2026, sendo que, apenas para mencionar um caso, o JPMorgan registrou receitas de transações de 11,6 bilhões de dólares, aparentemente o maior valor da história do banco (Wall Street Banks Feast On Iran War Volatility, disponível em
https://www.thebanker.com/content/3b72a30c-8aca-4074-82fb-36bf405faece#:~:text=Middle%20East%20conflict%20has%20meant,per%20cent%20to%20$24.6bn ) .
Ocorre que, em outra parte importante do sistema financeiro norte-americano a situação é, ao contrário, bastante sombria. Como expliquei em dois artigos anteriores (“O Que Está Havendo com o Sistema Financeiro Norte-Americano?”, publicado em duas partes no Diário de Petrópolis em 2 e 7 de março deste ano), os chamados “bancos sombra” (shadow banks), entidades financeiras que, apesar de agirem em grande medida como os bancos tradicionais oferecendo crédito a empresas pequenas e médias, não recebem depósitos como os bancos comerciais e, por isso, não estão sujeitas à regulação e supervisão que são normalmente exercidas sobre os bancos comerciais. Isso significa risco elevado, e há vários sinais de que o setor vem enfrentando sérias dificuldades.
No início do ano, o Blackstone Private Credit Fund foi obrigado a fazer um aporte de 400 milhões de dólares em capital próprio para enfrentar uma onda de resgates de aplicadores. Em abril deste ano, o Starwood Real Estate Income Trust foi obrigado a suspender todos osresgates, mantendo-os apenas para casos extremos, como o de falecimento ou incapacitação. O HPS Corporate Lending Fund da BlackRock limitou resgates no início deste ano, assim como a Blue Owl Capital, o Morgan Stanley & Cliffwater e o Apollo Global Management.
Esta “esquizofrenia” no sistema financeiro norte-americano é curiosa, ainda mais porque os grandes bancos são, muitas vezes, credores de bancos sombra. Como os grandes bancos de Wall Street podem estar lucrando tanto, em uma situação deste tipo? A resposta está na atual Guerra do Oriente Médio. Esta guerra tem produzido dois movimentos defensivos, em que os grandes bancos de Wall Street têm muito a ganhar. O primeiro movimento defensivo é o ajuste na composição do portfólio (a carteira de investimentos) de grandes empresas, na tentativa reduzir a perspectiva de perdas com a Guerra. Isso funciona assim: suponha que uma empresa possui 100 milhões de euros em ações de empresas europeias de energia, que ela deseja agora se desfazer, trocando, por exemplo, por títulos do tesouro dos Estados Unidos, em razão da vulnerabilidade europeia aos efeitos da Guerra sobre a oferta de energia. Seria muito demorado para a empresa esperar que os 500 milhões de euros em ações fossem todos vendidos.
Assim, ela recorre a um grande banco de Wall Street, que se dispõe a comprar as ações em troca de dólares, cobrando para isso uma taxa, que será tanto maior quanto maior for o risco de as ações perderem seu valor, e quanto maior for a pressa da empresa de vender.
O segundo movimento defensivo resulta de empresas, que atuam em mercados afetados pela Guerra, tentarem se defender de movimentos de preços imprevistos, especialmente com operações de hedge, ou seja, operações de cobertura. Por exemplo, imagine que uma empresa de aviação está preocupada com a variação do preço do querosene de aviação. Para evitar surpresas prejudiciais, ela faz o seguinte contrato com um grande banco, um commodity swap (o leitor deve me desculpar pela quantidade de anglicismos neste texto, mas juro que estou tentando minimizá-los), fixando o preço do querosene de aviação em 4 dólares o galão. Se o preço subir além disso, digamos para US$ 4,50, o banco pagará os 50 centavos de dólar por galão de diferença para a empresa. Se o preço cair abaixo disso, digamos para US$ 3,80, a empresa de aviação pagará os 20 centavos por galão de diferença ao banco. Assim, a empresa passa a ter a segurança de que o preço ficará “fixo” em 4 dólares o galão, transferindo o risco para o banco.
Mas o banco não vai arcar com este risco, pois ele vai fazer um contrato semelhante com um produtor de querosene de aviação que, por insegurança, também quer fazer uma operação de cobertura em relação a variações imprevistas de preços. Se o banco fizer um contrato com um produtor de querosene, de forma a fixar o preço em US$ 3,90 o galão, temos que, se o preço subir para US$ 4,50 o produtor pagará 60 centavos de dólar por galão ao banco.
Caso o preço se reduza para US$ 3,80, o banco pagará 10 centavos por galão ao produtor. O leitor pode fazer as contas para verificar que, em qualquer caso, o banco receberá mais do que pagará.
Assim, na verdade os grandes bancos de Wall Street estão lucrando com o desarranjo na economia global provocado pela guerra. Obviamente, esta não é uma maneira sustentável de lucrar. Se a crise dos bancos sombra se agravar, há o risco de uma debandada dos investidores dos ativos mais arriscados. Isso provocaria uma perda de valor nos ativos dos grandes bancos de Wall Street em relação a seus passivos (os créditos que eles concedem), o que provocaria uma redução na oferta do crédito.
No caso de uma recessão, até mesmo os commodity swaps serão afetados, pois algumas empresas que apostaram contra a tendência dos preços podem não ter vendas e, assim, receita para pagar aos bancos.
É esperar para ver.
Veja também: