Edição: sábado, 16 de maio de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

Os Dois Consensos


Ronaldo Fiani


Desde os anos 1990, quando se trata de combater a inflação, estabeleceram-se em vários países do mundo e no Brasil dois consensos (ainda que não unânimes) muito peculiares. Esses consensos reduziram o combate a processos inflacionários desde então a apenas elevar a taxa de juros básica (no caso brasileiro a taxa SELIC), que estabelece o patamar mínimo de todas as outras taxas de juros da economia. Desta forma, quando a taxa básica (como a taxa SELIC) sobe, todas as outras taxas de juros sobem também. O problema é que utilizar a taxa de juros para combater processos inflacionários é um procedimento adequado somente quando a inflação é uma inflação de demanda. Além da inflação de demanda, pode haver também inflação de custos. Aqui, portanto, é preciso entender a diferença entre inflação de demanda e inflação de custos.

De forma muito simplificada, há inflação de demanda quando as empresas estão investindo e os consumidores estão comprando mais do que a economia consegue produzir, o que leva a uma superutilização da capacidade de produção da economia. Pressionadas, as empresas que fabricam máquinas, equipamentos e insumos para atender aos investimentos excessivos em relação à capacidade produtiva são obrigadas a pagar horas extras aos seus empregados, que custam mais caro, e a pagar mais caro pelos insumos extras, necessários à produção. Por isso, as empresas produtoras elevam os preços de seus produtos. Da mesma forma, as empresas que fabricam bens de consumo cuja demanda excede sua capacidade de produção também elevam seus preços. O resultado é inflação.

Ao elevar a taxa de juros, vários projetos de investimento perdem a atratividade, pois a rentabilidade esperada desses projetos é menor do que o custo dos empréstimos para financiá-los. Com isso as empresas reduzem seus investimentos. Da mesma forma, o aumento dos juros repercute no custo do crédito para o consumo, as prestações ficam mais caras e, com isso, o consumo diminui. Com a redução do investimento e do consumo, a demanda não excede mais a capacidade de produção da economia, e os preços param de aumentar.

Quando há inflação de custos, todavia, a situação é diferente. Como o próprio nome afirma, uma inflação de custos acontece quando alguma restrição nas ofertas de produtos que são amplamente utilizados na atividade produtiva faz com que os preços destes bens se elevem. Como eles são de uso geral na economia, os aumentos dos seus preços repercutem nos preços dos produtos que os utilizam, em uma reação em cadeia que eleva os preços dos bens em geral, produzindo inflação. Neste último caso o mais adequado é adotar políticas que visem a ampliar a oferta dos bens que estão sofrendo algum tipo de restrição na quantidade disponível. Por
exemplo, adotando medidas que favoreçam o investimento na produção destes bens dentro do país.

Neste caso, a política de elevação de juros não é, em princípio, a mais adequada. Contudo, bancos centrais de países desenvolvidos e de países como o Brasil tendem a adotá-la. Por quê? Porque há hoje dois consensos. O primeiro consenso diz que não se deve adotar políticas que estimulem alguns setores da economia em particular, pois isso desvia recursos (capital e mão de obra) de outros setores da economia para os setores que são estimulados, o que pode gerar ineficiência, pois os setores que perderam recursos podem ser mais lucrativos do que os setores estimulados. Mas, para que isso seja verdade, é necessário que não haja equipamento, máquina, instalação ou mão de obra na economia que esteja desempregado contra a sua vontade e, assim, os recursos que forem para um setor terão  necessariamente de sair de outro; o que somente é verdade se houver inflação de demanda ou estivermos próximos dela. Mas esse não é o caso, pois a inflação está sendo provocada por limitações na oferta.

O segundo consenso afirma que usar a elevação da taxa de juros para combater a inflação, seja de demanda ou de custos, é a melhor opção porque afeta a todos os setores da economia da mesma maneira e, assim, cria um “jogo igual para todos” (level playing field), em que os mais eficientes irão se destacar e sobreviver: elevar a taxa de juros não privilegiaria ninguém, mas isso não é verdade. Elevar a taxa de juros beneficia os que vivem da renda de suas aplicações financeiras (os chamados rentistas), e os credores de forma geral. Além disso, setores onde atuam apenas poucas grandes empresas em geral lidam melhor com juros altos do que setores com muitas empresas pequenas, que têm margens de lucro pequenas. Logo, estamos longe do que seria um “jogo igual para todos”.

Se é assim, por que bancos centrais mundo afora elevam os juros para combater qualquer tipo de inflação? Primeiro, porque acaba funcionando, ainda que com custos muito mais elevados. Se a elevação da taxa de juros for suficientemente forte e duradoura para reduzir substancialmente a demanda na economia, a inflação vai acabar cedendo, mesmo que às custas de um aumento expressivo de desemprego. Além disso, os economistas que participam dos consensos aplaudem.

Mas hoje há um risco elevado nesses dois consensos. A crise do Estreito de Ormuz vem provocando uma ampla desorganização no fornecimento de uma série de insumos básicos, e na própria organização das cadeias produtivas globais, que fornecem uma série de bens. Isso significa que uma série de empresas, possivelmente algumas muito importantes, podem estar sofrendo com a elevação dos custos que vem resultando das restrições de oferta. Uma elevação dos juros adotada por vários bancos centrais, para combater a inflação de custos que está surgindo, pode ser o fator derradeiro a comprometer a saúde financeira destas empresas, provocando uma recessão em escala nacional ou até global.

Como tenho terminado meus artigos recentemente, em função da instabilidade da economia global e da política imprevidente que vem sendo adotada: é esperar para ver.

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