Edição: sábado, 23 de maio de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

A Economia Norte-Americana Pode Estar Parando de Correr no Ar

Em artigo publicado no Diário de Petrópolis em 21 de setembro de 2025, intitulado “A Economia Norte-Americana Está Correndo no Ar” expliquei que há muito a economia dos Estados Unidos vem sendo sustentada por um mecanismo bastante peculiar, em relação ao qual todos devemos ficar atentos.

Para explicar este mecanismo, usei uma imagem que era frequente em desenhos animados antigos: um personagem (geralmente o vilão) perseguia outro que, ao chegar à beira de um precipício parava e dava um passo para o lado, enquanto o vilão passava correndo. O aspecto cômico da cena era o fato de que o vilão continuava correndo, mesmo quando não havia mais chão sob seus pés. Somente quando o vilão se dava conta de que não havia mais chão e parava, então ele caia, muitas vezes com um adeus para o espectador, acentuando o lado engraçado da cena.

A analogia aqui é com um mecanismo que somente se sustenta enquanto ninguém se incomodar com o fato de que este mecanismo, na verdade, não possui sustentação econômica. Bolhas especulativas no mercado financeiro funcionam exatamente assim: elas se sustentam enquanto ninguém se incomoda com o fato de que temos uma bolha. Quando percebem, fogem das aplicações financeiras e a bolha estoura. Mas o que é uma bolha especulativa? Simplificadamente, há uma bolha especulativa quando ativos financeiros e imobiliários se valorizam muito mais do que o crescimento da economia justifica.

Ocorre que, desde 1980, o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos (o PIB, a soma de todos os bens e serviços produzidos na economia durante um ano) cresceu em torno de 230%, o que é uma medida aproximada do crescimento da renda do país, que em princípio vai alimentar a demanda por ativos financeiros. Contudo, o índice Standard and Poor’s 500, que reflete a valorização das 500 maiores empresas na bolsa de Nova York se valorizou no mesmo período em termos reais (descontada a inflação ao consumidor) em aproximadamente 1.500%! Propriedades de luxo na Flórida se valorizaram em termos reais no mesmo período em torno de 550%, e na California em mais de 700% em média.

Esta sobrevalorização acontece frequentemente porque os ganhos que estes ativos podem proporcionar são superestimados quando há liquidez abundante, ou seja, quando há dinheiro constantemente sobrando. Trata-se de um ciclo: com dinheiro disponível, empresas e famílias compram ativos, cujos preços sobem, o que leva as empresas e famílias a comprar mais ativos na expectativa de que eles continuem se valorizando, e assim os preços dos ativos tornam a subir em um círculo vicioso, enquanto houver liquidez (isto é, dinheiro disponível).

Mas de onde está vindo este dinheiro? Esta resposta se desdobra em duas. Em primeiro lugar, a fonte imediata de dinheiro é o crédito, e a economia dos Estados Unidos vem se endividando cada vez mais, ainda que com oscilações, pelo menos desde os anos 1980. Naquele ano, o endividamento do governo federal dos Estados Unidos era de aproximadamente 31% do PIB, passando para 42% em 1990, baixando para 35% em 2000, mas, a partir daí, saltando para mais do dobro, 90% do PIB em 2010, se elevando então para 127% do PIB em 2020 e se situando atualmente em 122%.

No caso do setor privado (famílias e empresas), os valores são ainda mais impressionantes. De 120% do PIB em 1980, o endividamento passou para 160% do PIB em 1990, aumentou para 170% em 2000, alcançou 240% do PIB em 2010, 260% do PIB em 2020 e neste ano atingiu 270% do PIB norte-americano.

Agora vem a segunda etapa da resposta: de onde vem o dinheiro para sustentar essa expansão do crédito e do endividamento? A resposta é: ele vem dos dólares que os Estados Unidos injetam na economia mundial com seus enormes déficits comerciais, pois o dólar é uma moeda global, e os países aceitam dólares como pagamento pelas importações norte-americanas. Esses dólares retornam para serem aplicados nos Estados Unidos, sustentando a expansão da dívida pública e privada. Para ser ter uma ideia, só no ano passado, o déficit comercial dos Estados Unidos foi de 901 bilhões de dólares, quase um trilhão! Boa parte deste dinheiro retorna aos Estados Unidos, onde vai ser aplicado para render juros, dividendos ou se valorizar em propriedades imobiliárias, e assim sustentar o crédito e o endividamento naquele país.

O problema é que a fonte pode estar secando, ou seja, a economia pode estar parando de correr no ar. Dia 19 de maio, terça-feira passada, a Nota do Tesouro dos Estados Unidos com prazo de 30 anos estava pagando um rendimento de 5,18%, alta recorde desde 2007, antes da crise financeira. Também o título de 10 anos registrou alta, ainda que não tão expressiva (4,66%, um recorde de 1 ano).

O significado imediato disso é que a demanda por estes títulos se reduziu, e que a redução foi maior (e muito maior) nos títulos de maior prazo, que envolvem mais incertezas. O que está por trás disso? Os analistas correram para apontar a crise do Estreito de Ormuz e a perspectiva de alta inflacionária, assim como o elevado déficit fiscal dos Estados Unidos como causas. Sem dúvida elas são causas importantes, mas não parecem explicar totalmente uma alta recorde de 19 anos. Talvez a reciclagem de dólares, fonte de expansão do crédito, do endividamento e da bolha de ativos que já dura décadas esteja começando a secar. Vamos acompanhar com atenção.

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