Edição: sábado, 30 de maio de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

O Agronegócio e a Vulnerabilidade da Economia Brasileira

Desde os anos 1950, autores que são referência no pensamento econômico sobre desenvolvimento vêm chamando a atenção para o risco de um país se tornar excessivamente dependente da produção de bens primários. Bens primários são aqueles bens pouco elaborados, tais como minérios, bens agrícolas sem muito processamento, algumas vezes in natura etc., em contraste com produtos industriais como automóveis, telefones celulares, computadores etc., que são produtos que embutem tecnologia sofisticada com um longo processo de aprendizagem. Esses bens primários são chamados de commodities.

O principal problema que esses autores apontavam era o de que, enquanto os produtos industrializados tinham os preços estáveis, pois são poucas empresas que produzem estes bens no mundo e, assim, elas têm a capacidade de fixar seus preços, as commodities são produzidas de forma competitiva, ou seja, sua oferta global é o resultado da oferta de vários produtores em vários países. Seus preços dependem, portanto, da demanda global, elevando-se quando a demanda global é maior do que a oferta, e diminuindo quando a oferta global supera a demanda.

Como a demanda global é usualmente consequência do crescimento da economia mundial, os preços das commodities dependem diretamente do crescimento da economia mundial: se a economia mundial cresce, os preços das commodities aumenta; se a economia mundial cresce pouco ou entra em recessão, o preço das commodities diminui. Por isso os anos 2000 foram de intenso crescimento nos preços das commodities, motivado pela ascensão da economia chinesa. Também o arrefecimento da pandemia da Covid-19 em 2021-2022 provocou uma alta significativa nos preços das commodities, em função da retomada da atividade econômica global.

O problema é que, além da demanda por commodities ser instável, os fatores que vêm promovendo o crescimento desta demanda são cada vez mais de natureza ocasional e de curta duração, à medida que o crescimento chinês vem perdendo o seu fôlego. Se excluirmos o período da pandemia, desde 2014-2015 as cotações do trigo, da soja e do milho não alcançam mais os patamares do período anterior.

Em outras palavras, excluindo as quebras de safra provocadas por razões climáticas ou eventos geopolíticos como a Guerra da Ucrânia que, na sua eclosão afetou aproximadamente 30% da oferta mundial de grãos, os indicadores apontam para uma estagnação de preços das commodities. Isto é especialmente grave, dada a importância que as commodities alcançaram para a economia brasileira, especialmente após o processo de desindustrialização que se iniciou nos anos 1990: hoje, soja em grãos e milho, sozinhos, respondem por aproximadamente 18% do valor das exportações brasileiras.

Não surpreende, assim, a escalada dos pedidos de recuperação judicial no agronegócio brasileiro. Em 2023 foram 534 pedidos, em 2024 verificou-se um salto para 1.272 pedidos, e em 2025 o agronegócio atingiu o pico de sua série histórica, com 1.990 pedidos de recuperação judicial. É importante notar que são dados referentes a um período já bem posterior à mudança da legislação sobre recuperação judicial em 2020 e que, dessa forma, não pode ser explicado apenas pelo aprimoramento da Lei.

Também é importante notar que, embora a política de juros elevados que vem pressionando a economia brasileira explique em grande medida o aumento nos números absolutos que acabamos de ver, ela não explica o aumento da participação do agronegócio no total das recuperações judiciais, quando se consideram apenas as solicitações de recuperação por parte de detentores de CNPJ (que englobam as empresas, excluindo, em princípio, a maior parte dos produtores individuais). Isso porque a elevação dos juros afeta igualmente os três setores: o agronegócio, a indústria e o comércio. Portanto, não deveria alterar a participação destes setores.

Com efeito, considerando apenas as solicitações feitas por CNPJ, em 2022 a participação do agronegócio no total das recuperações era de menos de 5%, pois o setor vivia o forte crescimento de preços com o fim da pandemia. Em 2023 essa participação ficou em torno de 10%, dobrando a participação do ano anterior. Em 2024 dobrou novamente, para 10% e, em 2025, atingiu 30%, um recorde histórico.

Há, por conseguinte, indicadores claros de perda de dinamismo por parte do agronegócio, onde a economia brasileira vem depositando todas as suas fichas desde os anos 1990. Como o país vem se desindustrializando desde o mesmo período, desconsiderando as advertências que economistas pioneiros do estudo do desenvolvimento vêm fazendo há 70 anos, temos um quadro muito preocupante.

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