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Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

A Volta da Incerteza Radical

No artigo da semana passada destaquei a crescente desorganização da economia global, que vem sendo afetada pela elevação das tarifas de importação (movimento originado nos Estados Unidos) e por conflitos em áreas críticas, como o Estreito de Ormuz. Tudo isto tem causado problemas para a oferta e não apenas elevação de custos para as cadeias produtivas globais.

Estas cadeias, que nada mais são do que a distribuição das etapas necessárias à produção de muitos bens (celulares, vestuário, eletrônicos, automóveis, farmacêuticos etc.) por vários países, especialmente da Ásia (com destaque para a China) foram a grande novidade na economia global desde os anos 1990. Estas cadeias globais reorganizaram a produção industrial em escala mundial, reduzindo a participação da indústria na produção total não apenas de países em desenvolvimento, como o Brasil, mas também de países desenvolvidos, incluindo os Estados Unidos.

Os chamados analistas econômicos na mídia têm se preocupado apenas com os impactos desta desorganização sobre os preços e a inflação. Obviamente, são impactos importantes, mas de curto prazo. As consequências mais sérias são sempre aquelas mais duradouras, e estas serão severas, porque elas vão atingir os investimentos na economia mundial, e são os investimentos que determinam o crescimento econômico: quando eles se retraem, o crescimento global diminui e, dependendo do nível de retração, pode iniciar uma recessão global.

Mas por que isso é importante? Obviamente uma recessão global significa problema para todos os países, mas em particular para aqueles que vivem da exportações de produtos primários (que são produtos agrícolas pouco processados, minérios etc.), como o Brasil. A razão disto é simples: os preços deste tipo de produto no mercado mundial dependem da intensidade da demanda mundial. Esta demanda, por sua vez, depende do crescimento da economia global, pois, como são matérias-primas e alimentos, sua demanda depende do volume da atividade econômica global. Uma recessão internacional, desta forma, é uma má notícia.

Fatores que afetem de forma adversa o investimento global, portanto, são potencialmente nocivos para a economia brasileira (além de vários outros países). A desorganização da economia mundial é fator adverso muito importante. Mas como isso acontece? A desorganização da economia mundial afeta negativamente o investimento global, porque ela põe em destaque aquilo que John Maynard Keynes (1883-1946), um dos economistas mais importantes da história chamou de incerteza, que é uma incerteza radical.

Keynes distinguia risco de incerteza radical. É fácil entender a diferença. Quando você joga em uma loteria, por exemplo, as chances de ganhar são bem conhecidas: uma pesquisa rápida na internet informa que a chance de ganhar na Mega-Sena com uma aposta simples de 6 números é de 1 em 50.063.860. Isto é risco, mas não é incerteza como Keynes se refere.

Quando é impossível calcular as chances dos eventos, trata-se de incerteza radical, ensina Keynes. A incerteza surge porque o investimento, especialmente o investimento em fábricas e em outros tipos de instalações produtivas tem uma vida útil prolongada, e é simplesmente impossível estimar as chances dos vários eventos que podem afetar o investimento durante toda a sua vida útil.

Por exemplo: uma planta petroquímica dura em torno de 20-40 anos. Portanto, a decisão de investir em uma nova fábrica tem de responder, entre outras perguntas, a questões do tipo: quais são as chances de um conflito ocorrer na região onde a fábrica será construída nas próximas décadas? Ou: quais são as chances de uma política tarifária reduzir o mercado para os produtos da fábrica, digamos, nos próximos 20 anos? Obviamente, não há como avaliar as chances destes eventos.

Ocorre que os eventos que vêm desorganizando a economia mundial elevam significativamente este tipo de incerteza, o que torna problemáticas as decisões de investir, afetando de forma negativa o crescimento da economia global. Contudo, os problemas não param por aí. Como Keynes ensinou, diante de situações de incerteza, a tendência é a de que os investidores adotem o que ele chamou de comportamento de manada, ou seja, que eles imitem o que todos estão fazendo. Assim, se os demais estiverem investindo na produção, a tendência do tomador de decisão é investir também; se os demais estão fugindo de investimentos na produção e buscando aplicações financeiras mais seguras, o tomador de decisão faz o mesmo.

A lógica por trás deste comportamento é simples. Se não é possível estimar as chances, seguir o comportamento dos demais diminui os riscos para os tomadores de decisão, na medida em que ele mantém a sua posição em relação aos demais: se der errado, ele fracassa junto com os demais, e não falha sozinho; se der certo, ele se beneficia juntamente com todos os outros, e mantêm sua posição em relação aos concorrentes. Trata-se de uma estratégia que minimiza os danos.

O problema é que esta estratégia, ao ser adotado pelos investidores em situações de incerteza radical, aumenta a instabilidade, pois a fuga de investidores se torna um verdadeiro estouro do rebanho, o que faz com o fluxo de investimento se retraia bruscamente, tornando a atividade econômica potencialmente cada vez mais instável.

Tempos difíceis se aproximam.

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