Edição: sábado, 27 de junho de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

Em Wall Street, as Coisas Muitas Vezes Não São o Que Parecem

Na semana passada, a imprensa deu amplo destaque à estreia da SpaceX, empresa de Elon Musk, na Nasdaq, a bolsa nova-iorquina conhecida por concentrar companhias de tecnologia de ponta. As manchetes destacaram o fato de que o lançamento das ações da empresa foi o maior da história, tendo a SpaceX alcançado o valor aproximado de 2 trilhões de dólares, a partir da valorização das suas ações. Mas o que determina o valor das ações de uma empresa, que, somadas, resultam em um valor total que pode ser tão impressionante? O valor de uma ação é determinado pela demanda de quem deseja adquirir a ação e pela oferta de quem dispõe da ação e deseja se desfazer dela. Se a demanda supera a oferta, o valor da ação aumenta; se a demanda é inferior à oferta, o valor da ação se reduz. A questão então é: o que determina a demanda pela ação de uma empresa?

A demanda pela ação de uma empresa é, em geral, afetada por duas coisas diferentes. Uma delas é o comportamento dos dividendos pagos pelas ações da empresa. Se a empresa tem remunerado os proprietários de suas ações com dividendos generosos, e há uma expectativa generalizada de que ela continue assim no futuro, a demanda pelas suas ações como fonte de rendimento será provavelmente intensa. Mas há outro determinante para a demanda pelas ações de uma empresa, que também é muito importante e pode não ter relação com os dividendos passados, nem mesmo com os dividendos a serem pagos no futuro imediato: é a demanda motivada pela expectativa de que o valor da ação aumente no futuro.

Nos dois casos, ou seja, tanto na demanda motivada pelos dividendos futuros quanto na demanda motivada pela valorização esperada das ações, temos, na verdade, expectativas, que podem ou não se concretizar. Como os investidores lidam com a incerteza futura, incerteza esta que, por sinal, vem aumentando a cada dia com a crescente desorganização da economia mundial que mencionei em artigo anterior (“Os Setores Mais Afetados Pela Desorganização da Economia Global”, Diário de Petrópolis, 14 de junho de 2026, disponível em: https://diariodepetropolis.com.br/integra/colunista-ronaldo-fiani-45774 )? Como John Maynard Keynes (1883-1946) explicou, eles adotam uma convenção: supõem que as coisas vão continuar do jeito que estão.

Portanto, acredita-se que, se uma ação está pagando dividendos generosos, ela deve continuar assim; se uma ação está se valorizando, ela deve continuar assim etc. Obviamente, trata-se de expectativas instáveis, porque tendem a se mover juntas e sempre na mesma direção, seja de forma positiva ou negativa. Contudo, elas têm um efeito importante: se você conseguir influenciar a opinião geral em uma dada direção que seja favorável, ela vai consolidar uma dinâmica positiva, que somente será invertida em caso de uma reversão muito forte das circunstâncias. Ou seja, quando há uma convenção positiva, os agentes tendem a investir nos mesmos ativos, que se valorizam e, assim, atraem novos investimentos em um círculo vicioso que gera as famosas “bolhas especulativas”.

No caso em questão, há evidências significativas de que há uma bolha especulativa envolvida. Matéria de O Globo informa que a empresa “viu seu valor disparar nos últimos anos, impulsionada pelo interesse de investidores em negócios ligados à inteligência artificial e infraestrutura espacial” (“Primeiro Trilionário da História: Fortuna de Musk Supera Patrimônio Somado do Fundador da Amazon e Criadores do Google”, O Globo, 12 de junho de 2026, disponível em https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/06/12/musk-se-torna-o-primeiro-trilionario-da-historia-apos-estreia-da-spacex-na-bolsa-americana.ghtml ). Ocorre que novas tecnologias e novos produtos são, por excelência, propícios a estimular bolhas especulativas. Isso porque, por serem novos, ou seja, por ainda não disporem de mercados consolidados, é muito difícil estimar a sua rentabilidade. Publicidade favorável (algo que não é difícil conseguir, especialmente com “especialistas” divulgando na mídia as maravilhas das novas tecnologias e dos novos produtos) pode gerar expectativas de grandes lucros, levando os investidores a aplicarem seus recursos nas ações das empresas de Elon Musk, o que faz os preços das ações aumentarem, o que atrai novos investidores, elevando novamente os preços, e assim por diante.

Com efeito, esses investidores não parecem preocupados com o fato de que o antigo Twitter, rebatizado de X após a aquisição por Elon Musk, se revelou um péssimo negócio. Tendo sido adquirido por US$ 44 bilhões em 2022 com um empréstimo bancário de US$ 13 bilhões, hoje valeria, como na avaliação do Fundo Mútuo Fidelity, que possui participação no X, algo em torno de US$ 12,5 bilhões, menos do que o valor dos empréstimos bancários tomados para a aquisição, em razão da queda vertical em suas receitas desde a aquisição. Os investidores também não parecem muito incomodados com o fato de que muitas das promessas de Musk com relação a novas tecnologias e empresas de ponta, como o Tesla autônomo e a Neurolink, não se concretizaram.

Por que esse otimismo, que não parece justificado pelos resultados de Musk? Em primeiro lugar, a convenção funciona como fator de inércia. Mas, de forma bem mais importante, há um excesso de dinheiro (chamado pelos economistas de “liquidez”), que facilita investimentos especulativos. Esse dinheiro vem, em grande parte, dos lucros das empresas norte-americanas e estrangeiras fora dos Estados Unidos, especialmente na Ásia, que são convertidos em dólares, remetidos de volta para o país e aplicados. Mas esta fonte pode estar secando, entre outros fatores, pela desorganização da economia mundial em curso.

É esperar para ver.

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