Edição: sábado, 04 de julho de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

A Alta dos Juros nos EUA e a Desorganização da Economia Global

Em vários artigos, tenho destacado o processo de desorganização da economia global em curso. Muito recentemente, um novo fator (além das proibições norte-americanas ao comércio de produtos de tecnologia de ponta iniciadas na era Biden, das tarifas na era Trump e da crise geopolítica do Estreito de Ormuz) foi adicionado a um quadro que já está muito complicado: a alta dos juros nos Estados Unidos, especialmente os juros de curto prazo, com os rendimentos dos títulos do tesouro norte-americanos de 2 anos atingindo 4,2% ao ano.

Para entender isso, é preciso destacar o papel que a liquidez (ou seja, a oferta de dinheiro) e consequentemente a taxa de juros nos Estados Unidos tiveram na construção das cadeias globais de valor a partir dos anos 1990. Uma cadeia global de valor nada mais é do que a distribuição das várias etapas do processo produtivo (design do produto, montagem, distribuição etc.) de um bem ou serviço por vários países.

A novidade da cadeia global de valor em relação à simples internacionalização da produção que acontecia anteriormente é que, em vez de trocas entre fornecedor e cliente que eram intermediadas pelo mercado mundial, sem vínculos entre os dois (pense em um importador que trazia tecidos da Índia e vendia para confecções no Brasil), nas cadeias globais de valor uma empresa (por exemplo, um fabricante de aparelhos celulares) coordena o processo de fabricação com contratos de longa duração com fornecedores internacionais.

Os anos 1990 testemunharam uma grande expansão destas cadeias, incorporando principalmente produtores da Ásia, destacadamente da China. Um fator importante neste processo, bastante conhecido, foi o fim do bloco socialista em 1989-1991 e a abertura chinesa. Também foram importantes mudanças tecnológicas que já abordei aqui, como a internet acelerando as comunicações e os contêineres reduzindo os custos e as perdas no comércio internacional de produtos de alto valor unitário. Outro fator fundamental, mas bem menos conhecido foi a oferta de dinheiro barato nos Estados Unidos nos anos 1990. Esta oferta de dinheiro barato foi obra de Alan Greenspan (1926-2026), falecido recentemente em 22 de junho, que presidiu o banco central dos Estados Unidos, o Federal Reserve, ou simplesmente Fed, de 1987 até 2006.

Ao manter as taxas de juros norte-americanas em média durante a sua gestão bastante baixas, Greenspan favoreceu a tomada de empréstimos pelas empresas daquele país, que tomavam dinheiro para construir fábricas e, quando conveniente, adquirir fornecedores em outros países. Estas taxas de juros também facilitaram a aquisição do capital de giro necessário para garantir a circulação internacional de componentes e partes de produtos fabricados fora dos Estados Unidos, sem mencionar o financiamento da construção da infraestrutura necessária para esta circulação de produtos.

A alta dos juros nos Estados Unidos, que está atingindo não apenas os juros de longo prazo (usualmente mais elevados, pois, quanto maior o prazo, maior a incerteza), dificulta o acesso ao dinheiro quando as cadeias globais de valor já estão sendo estressadas por todos os motivos que apontei mais acima. Isto é importante, na medida em que, neste momento, essas cadeias globais estão buscando se redesenhar com maior ênfase na proximidade regional, para evitar áreas sujeitas a problemas políticos, o que vai demandar novos investimentos. O problema tende a se agravar, na medida em que outros bancos centrais também elevem suas taxas de juros, para reduzir os fluxos de aplicações financeiras direcionados aos Estados Unidos.

Contudo, nem todas as cadeias serão afetadas da mesma forma. Algumas etapas, principalmente aquelas etapas de produtores asiáticos que envolvem tecnologia mais sofisticada, e que comandam as outras etapas menos elaboradas, tendem a se proteger de boa parte destes impactos adversos. Isto porque, em primeiro lugar, estes produtores asiáticos têm maior capacidade de elevar os seus preços (como a elevação recentemente praticada pelo fabricante de microcircuitos de Taiwan, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company - TSMC).

Em segundo lugar, porque os custos dos produtores asiáticos de ponta são pagos em moeda local e não em dólares, que estão se valorizando com a elevação das taxas de juros nos Estados Unidos por causa do aumento dos juros (na medida em que os aplicadores internacionais buscam se aproveitar destes juros mais altos). Em terceiro lugar porque, comandando as etapas mais sofisticadas das cadeias produtivas globais, suas margens de lucro são maiores (porque há menos concorrentes) e, assim, não precisam recorrer tanto a crédito, que está mais caro.

Quem vai sofrer um impacto maior é quem está nas etapas menos elaboradas das cadeias globais, por possuir menor poder de barganha (uma vez que são facilmente substituíveis na cadeia), ou que paga os seus insumos em dólares, como as indústrias dos países em desenvolvimento (atenção para a indústria aeronáutica brasileira, com a Embraer pagando 83% dos seus custos em dólares: https://veja.abril.com.br/coluna/radar-economico/o-fator-dolar-no-avanco-da-divida-da-embraer/ ), pois, como afirmei, o dólar tende a se valorizar com a alta dos juros naquele país, pois o mundo irá demandar mais dólares para realizar aplicações financeiras nos Estados Unidos.

Mas quem vai sofrer mais mesmo serão os produtores de produtos primários, como o Brasil, pois a taxa de crescimento da economia global vai minguar, e os preços de seus produtos dependem muito de uma demanda global forte, que resulta de um crescimento internacional vigoroso. Como tenho escrito em vários artigos, vamos pagar caro pela nossa dependência da exportações de produtos primários.

Edição: sábado, 04 de julho de 2026

Veja também:




• Home
• Expediente
• Contato
 (24) 99993-1390
redacao@diariodepetropolis.com.br
Rua Joaquim Moreira, 106
Centro - Petrópolis
Cep: 25600-000

 Telefones:
(24) 98864-0574 - Administração
(24) 98865-1296 - Comercial
(24) 98864-0573 - Financeiro
(24) 99993-1390 - Redação
(24) 2235-7165 - Geral