Edição: sábado, 11 de julho de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

A Geopolítica e o “Milagre Polonês”

Há um novo milagre econômico surgindo: a Polônia. Os dados mostram um sucesso indiscutível. No ano de 2004, quando a Polônia ingressou na União Europeia (EU), o PIB per capita do país (o produto interno bruto por habitante, ou seja, a soma em valor de todos os bens e serviços produzidos no país em um ano, dividido pela população), uma medida da riqueza nacional era apenas 50% da média da União Europeia. Hoje em dia, o PIB per capita polonês atinge 80% da média da União Europeia.

No momento do ingresso na EU em 2004, o PIB per capita polonês medido em paridade de poder de compra (uma medida que os economistas usam para expurgar influências da variação do câmbio) era de 13.413,1 dólares, enquanto o brasileiro era de 10.525,7 dólares, segundo dados do Banco Mundial (disponíveis em: https://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.PP.CD?locations=PL-BR ). Já em 2024, o PIB polonês per capita em paridade de poder de compra atingiu 51.262,5 dólares, enquanto o brasileiro alcançou apenas 22.338,5 dólares. Com isso, o PIB per capita em paridade de poder de compra da Polônia se aproximou muito daquele da Espanha, que é de 57.965,3 dólares.

O que está por trás do milagre polonês? A integração à UE é um dos fatores, como seria de se se esperar, afinal, as exportações polonesas aumentaram 6 vezes desde que a Polônia ingressou na EU. Mas é importante destacar que as exportações polonesas são constituídas em larga maioria, nada menos do que 80%, por produtos industriais.

Tenho enfatizado nestes artigos a importância da indústria para elevar o PIB de um país, e o caso polonês oferece mais evidências disso. No momento da entrada na EU, a indústria polonesa já respondia por algo em torno de 70% a 75% das exportações do país, e esta participação aumentou para 80% com a expansão do comércio para a EU, agora com participação crescente de produtos de alta tecnologia, com destaque para autopeças, eletroeletrônicos e equipamentos de transporte. Essa expansão da indústria tem sido favorecida pela integração das empresas do país às cadeias produtivas de empresas multinacionais, principalmente empresas alemães, com a Alemanha importando sozinha em torno de 27% das exportações polonesas. Ocorre que essa integração tem sido estimulada por razões geopolíticas.

De tempos em tempos, surge uma palavra da moda, que é usada tão amplamente que seu significado acaba se tornando difuso. Nos anos 1990, por exemplo, esta palavra era “governança”: da economia o futebol, tudo era visto como um problema de “governança”. Atualmente, a palavra na moda é “geopolítica”: não se pode discutir qualquer problema global, sem que a palavra geopolítica apareça em algum momento. Além de desgastante, o uso indiscriminado de uma palavra acaba esvaziando seu conteúdo, o que obriga quem a emprega a se certificar de que ela está sendo utilizada de forma compatível com o seu significado. A geopolítica estuda como as características geográficas de um país, por exemplo, seus recursos naturais e suas fronteiras moldam a política mundial. Um campo que vem se desenvolvendo na geopolítica é a chamada geoeconomia, ou seja, o estudo de como as relações econômicas (como o comércio e as finanças globais), a geografia e a disputa internacional de poder se afetam mutuamente.

Os economistas que recebem uma formação mais convencional têm uma enorme dificuldade para lidar com essas realidades, ou seja, para entender que política, geografia e economia se afetam mutuamente. A razão disto é que a teoria econômica convencional estuda apenas o comportamento dos mercados, supondo que este estudo é autossuficiente: para entender como os mercados funcionam, você só precisaria estudar os próprios mercados e nada mais.

O caso da Polônia é uma excelente ilustração de que, para entender muito do que acontece na economia, é preciso olhar não apenas para os mercados, mas também para a geografia e a política internacional. A expansão da indústria polonesa deve muito às exportações para a EU, mas como parte das cadeias de produção de empresas multinacionais, que desde o primeiro mandato de Donald Trump em 2016 estão reavaliando opções de fábricas e fornecedores que podem ter seu fornecimento prejudicado por razões políticas. Assim, tem aumentado a opção pela construção de unidades produtivas e a contratação de fornecedores mais próximos, ainda mais em países amigos. Na Europa, a Polônia é uma excelente opção, pela qualidade da mão de obra.

Além disso, um outro fator de enorme importância é a disponibilidade de fontes de energia, e a Polônia dispõe de um fornecimento seguro dos países escandinavos, enquanto a Europa e, especialmente a Alemanha, ficaram sujeitas à oferta de gás da Rússia, que acabou sendo afetada pela crise da Ucrânia. A Polônia se beneficia do gasoduto Baltic Pipe da Noruega, da linha de transmissão SwePol Link da Suécia e da importação de gás liquefeito de petróleo e outros combustíveis dos Estados Unidos, Suécia e Noruega.

Para completar, a Polônia é a maior beneficiária dos fundos de coesão europeus, tendo recebido mais de 160 bilhões de euros, que foram investidos na modernização da infraestrutura de transporte e energia, também por razões geopolíticas: o Plano de Ação de Mobilidade Militar da Comissão Europeia cita especificamente a infraestrutura de transporte da Polônia como essencial para movimentações da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a OTAN.

O “milagre polonês” ensina muito sobre o momento em que vivemos.

Edição: sábado, 11 de julho de 2026

Veja também:




• Home
• Expediente
• Contato
 (24) 99993-1390
redacao@diariodepetropolis.com.br
Rua Joaquim Moreira, 106
Centro - Petrópolis
Cep: 25600-000

 Telefones:
(24) 98864-0574 - Administração
(24) 98865-1296 - Comercial
(24) 98864-0573 - Financeiro
(24) 99993-1390 - Redação
(24) 2235-7165 - Geral