COLUNISTA
Tremores precursores são estudados cientificamente como os primeiros sinais de que um terremoto pode estar a caminho. Eles são de vários tipos: mudanças no nível da água em poços subterrâneos, provocadas por alterações na pressão das rochas; leves inclinações e movimentações no solo; aumento na liberação de gases subterrâneos e mudança de comportamento dos animais que habitam o lugar. Estes tremores precursores não permitem prever terremotos com segurança, pois às vezes eles se fazem presentes sem que nada aconteça, mas sua presença indica que algo pode estar prestes a acontecer.
Tenho publicado alguns artigos no Diário de Petrópolis, dos quais o último em 23 de maio deste ano, intitulado “A Economia Norte-Americana Pode Estar Parando de Correr no Ar” onde expliquei que há décadas a economia dos Estados Unidos vem sendo sustentada por um mecanismo que, do ponto de vista econômico é bastante peculiar, mas que deve receber a nossa atenção pelo perigo de um verdadeiro terremoto econômico que traz em potencial. Acontece que alguns sinais precursores estão surgindo.
O terremoto embutido neste mecanismo, na verdade, diz respeito ao fato de que ele não possui sustentação no mundo real da produção. Como tenho explicado, desde 1980, o Produto Interno Bruto dos Estados Unidos (o PIB, a soma de todos os bens e serviços produzidos na economia durante um ano) cresceu em torno de 230%, o que pode ser considerado uma medida aproximada do crescimento da renda do país. Este aumento da renda do país vai alimentar a demanda por ativos financeiros e imobiliários, pois as pessoas e empresas tendem a aplicar em ativos a parte de sua renda que não gastam consumido, ou investindo na produção. Esta demanda de pessoas e empresas por ativos financeiros e imobiliários acaba por valorizá-los.
Ocorre que, como apontei anteriormente, o índice Standard and Poor’s 500, que reflete a valorização das 500 maiores empresas na bolsa de Nova York aumentou no mesmo período em termos reais (descontada a inflação ao consumidor) em aproximadamente 1.500%! As propriedades imobiliárias de luxo na Flórida se valorizaram em termos reais no mesmo período em torno de 550%, e na California em mais de 700%, em média.
Se a economia norte-americana não vem crescendo na mesma proporção, ou seja, se a renda que ela gera aumenta menos que a valorização dos ativos, de onde está vindo a demanda que provoca essa valorização? Ela vem dos dólares que os Estados Unidos injetam na economia mundial com seus enormes déficits comerciais (a situação em que as importações superam as exportações), pois sendo o dólar é uma moeda global, os países aceitam dólares como pagamento pelas importações norte-americanas.
Esses dólares superam em muito a necessidade que os países têm deles para pagar as importações de produtos norte-americanos. Assim, os dólares excedentes retornam para serem aplicados nos Estados Unidos, sustentando a valorização dos ativos norte-americanos. Só no ano passado, o déficit comercial dos Estados Unidos foi de 901 bilhões de dólares, quase um trilhão! Boa parte deste dinheiro retorna há décadas aos Estados Unidos, entre outras coisas, sendo aplicado em títulos do governo norte-americano (além de ações de empresas, outros títulos financeiros e propriedades imobiliárias).
Desde maio, contudo, vem sendo possível identificar alguns tremores precursores neste mecanismo. Especificamente no dia 19 de maio, a Nota do Tesouro dos Estados Unidos com prazo de 30 anos estava pagando um rendimento de 5,18%, alta recorde desde 2007, antes da crise financeira. Em meados de julho, em torno de dois meses depois, está sendo negociada a 5,19% Também os títulos de 2 e 10 anos em meados de julho registraram alta, rendendo respectivamente 4,33%, e 4,72%, recordes desde fevereiro de 2025. Estas altas nos rendimentos dos títulos sinalizam demandas fraca, porque os rendimentos dos títulos são fixos, é o preço deles que é variável. Assim, se a demanda é fraca o preço do título cai, o que, dado o rendimento fixo significa proporcionalmente uma taxa maior de rendimento.
Por que a demanda está fraca? Há vários motivos. Um deles é que os aplicadores estão estimando que a taxa de juros vai aumentar, para combater os efeitos inflacionários que a desorganização na economia global com o aumento das tarifas e a crise do Estreito de Ormuz está provocando e, assim, estão demandando rendimentos proporcionalmente maiores para comprar títulos do governo norte-americano.
Mas há outro fator também, muito importante: a mudança no perfil da demanda por estes títulos. Os bancos centrais fora dos Estados Unidos que compravam estes títulos independentemente dos seus rendimentos, para aplicar suas reservas internacionais e garantir as suas importações estão perdendo o interesse por essa operação, diversificando as suas reservas para além do dólar, e fundos privados vêm ganhando espaço.
O problema é que a demanda desses títulos do governo dos Estados Unidos por fundos privados é instável, especialmente se comparada com as demandas dos bancos centrais que empregam estes títulos como aplicação de suas reservas internacionais: estes aplicadores privados internacionais entram e saem do mercado a qualquer momento, dependendo de sua avaliação de retorno e risco. Daí o aumento maior no rendimento dos títulos de longo prazo: 30 anos é muito tempo em uma aplicação para este tipo de investidor.
Vamos prestar atenção nos tremores precursores.
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