COLUNISTA
Vários economistas têm chamado a atenção para o processo de desindustrialização da economia brasileira, que se iniciou a partir dos anos 1990, inaugurado pela abertura comercial na administração Collor de Mello (que impactou especialmente a indústria têxtil), a partir daí acelerado pela paridade artificial do câmbio no governo Fernando Henrique Cardoso e pela valorização do real (efeito da alta global nos preços das commodities, ou seja, produtos agrícolas e minerais pouco elaborados) nos governos Luiz Inácio Lula da Silva e seus sucessores.
Mas falta compreender que essa desindustrialização não foi um resultado acidental, mas sim a resposta da economia do país a uma profunda reorganização da economia global após o colapso do mundo socialista nos anos 1989-1991, o que, juntamente com a ascensão posterior da China, definiu uma nova estrutura econômica comercial e financeira internacional. Como veremos, diante dessa reorganização, o Brasil adotou a linha de menor esforço, acomodando-se à nova realidade do comércio e das finanças globais. Agora, a crise que essa estrutura vive vai afetar gravemente a economia brasileira.
Essa estrutura da economia mundial vem sendo abalada, não apenas com as tarifas da administração de Donald Trump, mas pelas sanções econômicas adotadas pelo governo norte-americano contra a Rússia após a invasão da Ucrânia (os Estados Unidos têm um longo histórico de sanções, mas a exclusão de uma grande economia como a da Rússia do sistema internacional de pagamentos SWIFT gerou muita desconfiança em outros países); pelas restrições aos produtos e às empresas chinesas tanto nos Estados Unidos como na União Europeia; e pela crise do Estreito de Ormuz e seus efeitos não apenas sobre o mercado de petróleo e gás, mas sobre o mercado de produtos petroquímicos e de outros insumos como o gás hélio e o enxofre.
Mas o que caracterizou esta estrutura da economia mundial, que surgiu após o colapso dos países socialistas e a abertura chinesa? Uma primeira característica importante foi a expansão das cadeias globais de produção industrial. Essas cadeias nada mais são do que o resultado da distribuição das etapas de produção dos bens em países diferentes, em vez de repetir essas etapas em cada país onde os produtos são vendidos.
Por exemplo, com cadeias globais de valor os microcircuitos de todos os celulares de um fabricante mundial são produzidos em um único país, em vez de termos uma empresa produzindo os microcircuitos em cada país onde o celular é vendido. A ideia é se aproveitar a redução de custos que é obtida quando se concentra a produção de um insumo em uma empresa de um país, que atende a toda a demanda global de um produto (por exemplo, os custos do investimento em instalações e máquinas se diluem em um volume de produção maior).
Mas não apenas a produção industrial se distribuiu em vários países, como concentrou etapas tecnologicamente mais sofisticadas na China, em função de uma série de vantagens que o país oferecia: um gigantesco mercado interno, cuja atratividade fez com que as empresas estrangeiras investissem no pais não apenas construindo plataformas voltadas para as exportações, mas construíssem na China também etapas de tecnologia mais elaborada, visando a atender o mercado interno do país; mão de obra barata e bem treinada, com elevada produtividade, taxa de câmbio desvalorizada, tornando baratas as exportações do país; infraestrutura de elevada qualidade, além de outros incentivos.
Uma outra característica importante foi que a expansão das cadeias globais de valor provocou simultaneamente a expansão das finanças globais. Isto porque a distribuição de várias etapas em países diferentes aumentou extraordinariamente a necessidade de capital de giro, porque as cadeias globais estenderam significativamente o hiato de tempo entre a produção e a receita de venda dos produtos acabados. Sem mencionar o aumento na demanda por papéis que oferecessem proteção contra a variação cambial, algo importante quando os insumos atravessavam várias fronteiras, antes de completar o produto.
Diante desse quadro, países como o Brasil adotaram a resposta mais fácil, que foi renunciar à sua indústria em favor de uma oferta internacional de produtos manufaturados baratos, vindos das cadeias globais, pagando as importações com a valorização das commodities que a expansão da economia chinesa provocou. Reforçando este processo, havia o dinheiro abundante que a expansão financeira global oferecia, e que foi aplicado em investimentos no agronegócio e na mineração, em gastos de consumo e no giro da dívida pública, dado o estímulo ao afluxo de dinheiro estrangeiro fornecido pelos juros elevados que prevaleceram durante a maior parte deste período. Não se investiu em infraestrutura (acreditando-se que as privatizações resolveriam qualquer problema) e menos ainda na indústria.
Agora, toda esta organização da economia mundial está sendo desmontada. A China está crescendo menos, e não há a perspectiva de que volte a expandir suas exportações como antes, dadas as restrições adotadas pelos Estados Unidos e União Europeia; o fluxo de insumos nas cadeias globais de valor está sendo afetado de forma adversa, tanto pelas tarifas, como pela crise do Estreito de Ormuz. Tudo isto significa menor demanda por produtos minerais e agrícolas, ou seja, pelas commodities que movimentam a economia brasileira. Ao mesmo tempo, as finanças internacionais, afetadas pela redução da circulação nas cadeias globais de valor e pela incerteza do quadro internacional já não possuem o mesmo vigor de antes.
Pelas opções que o país fez desde os anos 1990, o Brasil está muito vulnerável a esta desorganização da economia global. Mas seguimos como se nada estivesse acontecendo.
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