COLUNISTA
Tenho visto algumas análises que consideram que a chamada globalização, ou seja, a integração comercial e financeira internacional, que se iniciou nos anos 1990, e que forneceu os princípios que organizaram a economia mundial está sofrendo atualmente apenas um desvio de rota, culpa da administração Trump com suas tarifas; e que assim que esta administração terminar a globalização será retomada em passo acelerado. Neste artigo vou tentar demonstrar que isso é um equívoco. Com efeito, há vários indicadores de que o atual processo de desorganização da economia mundial não será revertido, mesmo que a administração Trump seja sucedida por um governo democrata. Um primeiro indicador importante disso é o conjunto de medidas contrárias às tendências da globalização, adotadas pela administração de Joe Biden, democrata antecessor do segundo mandato de Trump, no período 2021-2025.
Uma das medidas mais importantes foi tomada em 9 de agosto de 2023, quando Joe Biden assinou a Ordem Executiva 14105, intitulada "Abordagem dos Investimentos dos Estados Unidos em Determinadas Tecnologias e Produtos de Segurança Nacional em Países que são Motivo de Preocupação". Esta medida estabeleceu algo até então inédito nos Estados Unidos: o controle dos investimentos norte-americanos em setores chineses de tecnologia de ponta, como inteligência artificial, computação quântica e microeletrônica sofisticada.
Mas as medidas da gestão Biden que vão de encontro aos princípios do livre comércio e da liberalização dos investimentos e das finanças internacionais não se limitaram à Ordem Executiva 14105. Foram também mantidas e até ampliadas as proibições de cidadãos e fundos de investimento norte-americanos de negociar valores mobiliários e ações de empresas chinesas vinculadas à defesa ou vigilância. Em outubro de 2022, o Departamento de Comércio norte-americano proibiu a venda de microcircuitos de inteligência artificial de alto desempenho, e de equipamentos para fabricação de semicondutores para a China, além de impedir cidadãos dos Estados Unidos de trabalharem no desenvolvimento dessas tecnologias naquele país. Adicionalmente, centenas de empresas de tecnologia, inteligência artificial, defesa e telecomunicações da China foram adicionadas à lista de restrições comerciais norte-americana (a chamada Entity List), exigindo licenças governamentais extremamente difíceis de se obter, para a compra de insumos norte-americanos.
Tudo isso, sem mencionar que as tarifas em relação a produtos chineses que foram adotadas no primeiro mandato de Donald Trump foram mantidas e ampliadas pela administração de Joe Biden, um verdadeiro anátema para os princípios do livre comércio. O governo Biden manteve a estrutura tarifária herdada da administração Trump sobre centenas de bilhões de dólares em produtos chineses e, em 2024, aumentou severamente as alíquotas tarifárias sobre setores industriais considerados estratégicos. O ponto importante a ser destacado aqui é que a política de barreiras comerciais, de restrição de investimentos externos e de fluxos financeiros para a China não é privilégio da administração Trump, nem mesmo de administrações republicanas, sendo compartilhada também pelos democratas.
Mais recentemente, um fato novo veio contribuir para a desorganização da economia mundial, e para que a chamada globalização fique de vez no passado. Trata-se da elevação da taxa de juros japonesa. Em junho deste ano o Banco Central japonês elevou sua taxa de juros para 1%, o valor mais elevado desde setembro de 1995, terminando de vez com praticamente três décadas de dinheiro a custo praticamente zero ou até, em alguns momentos, com custo negativo. Muitas análises aqui e lá fora têm destacado os efeitos desta elevação da taxa de juros para o custo da dívida pública japonesa, para a atratividade dos títulos públicos norte-americanos, para o valor da moeda japonesa etc. Mas não vi nenhuma análise da elevação da taxa de juros japonesa em relação às cadeias globais de valor. Como tenho explicado em vários artigos, as cadeias globais de valor foram essenciais para a reorganização produtiva da economia mundial a partir dos anos 1990: essas cadeias resultam da distribuição das várias etapas produtivas dos bens em diferentes países, especialmente na China e em outros países asiáticos.
As cadeias globais de valor são o pilar produtivo e comercial da globalização, levando à internacionalização do processo produtivo (antes concentrado em cada país cujo mercado interno justificasse a produção interna do bem em questão) e à ampliação do comércio exterior (daí a defesa da liberdade comercial e da redução das tarifas). Ocorre que muitos dos principais atores da construção destas cadeias globais de valor foram as empresas japonesas, especialmente a indústria automobilística e de produtos eletrônicos, que abandonaram seu modelo exportador baseado no Japão, para descentralizar completamente sua produção em outros países da Ásia, especialmente a China. Isso foi permitido pelo crédito extremamente barato no Japão, que tornou possível investir em outros países da Ásia e em infraestrutura nesses países, tomando dinheiro a custo praticamente zero. Crédito extremamente barato também favoreceu a expansão do capital de giro para as empresas japonesas, uma vez que a divisão das etapas produtivas em vários países estende o ciclo de produção antes da venda final, fazendo com que as empresas demorem para receber a receita das vendas.
A elevação do custo do dinheiro no Japão vai aumentar o custo de capital para as empresas japonesas, tornando ainda mais difícil sustentar o modelo de cadeias globais de valor. Isto, quando é urgente rever a atual distribuição destas cadeias, em função das incertezas econômicas e políticas atuais, e se faz ainda mais necessário ter crédito barato para investir nas mudanças e ajustes indispensáveis.
A desorganização da economia mundial prossegue a pleno vapor.
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