COLUNISTA
Nas faculdades de economia e de administração de empresas, é comum os estudantes ouvirem de alguns professores que a empresa familiar é uma forma de organização primitiva e, portanto, ineficiente da empresa moderna. Sob uma perspectiva ainda tradicional da Economia de Empresa, a firma familiar é descrita como um estágio imaturo e transitório. Por essa ótica, o crescimento exigiria inevitavelmente a superação da natureza familiar mediante a abertura de capital e a pulverização acionária como pré-requisitos para se atingir o porte de uma grande corporação.
A origem desta avaliação negativa da empresa familiar remonta a 1932, quando foi publicado o clássico de Adolf A. Berle e Gardiner C. Means, The Modern Corporation and Private Property. O livro indicava a grande sociedade anônima, com ações dispersas em grande número de pequenos acionistas, como sendo o futuro da empresa moderna. Os problemas apontados por Berle e Means em relação à empresa familiar resultariam exatamente do que a diferenciaria da grande sociedade anônima, principalmente a falta de especialização e profissionalismo da gestão (uma vez que a administração da empresa se concentra nas mãos da família e não de executivos profissionais); e a dependência dos recursos financeiros das famílias controladoras (por não poder diluir o seu capital em muitos pequenos acionistas), entre outros.
Os críticos das empresas familiares, contudo, teriam de demonstrar sua hipótese fundamental, pois se de fato a empresa familiar é um estágio primitivo e transitório da grande sociedade anônima, então as empresas familiares necessariamente têm de ser pequenas, pois a abertura de seu capital e sua diluição entre muitos acionistas (ou seja, a perda de seu caráter familiar) seria precondição para o seu crescimento; e também têm de ter vida curta, pois, segundo os seus críticos, ou a empresa familiar se transforma em uma sociedade anônima, ou ela perece, eliminada pela competição, dada a sua ineficiência administrativa e seu limitado acesso a capital.
Ocorre que não necessariamente a empresa familiar é pequena. Sem dúvida, empresas pequenas geralmente são familiares, mas a reciprocidade não é verdadeira: nada menos do que um terço das corporações do índice Standard & Poor’s 500 (o índice com as 500 maiores empresas negociadas na Bolsa de Nova York) são empresas familiares.
Podemos citar também os casos de algumas das maiores empresas do mundo comandadas ou controladas por famílias: Mars, Incorporated (proprietária de marcas como M&M’s, Pedigree, Whiskas, Royal Canin e Ben's Original); News Corporation (The Wall Street Journal, The Sunday Times); Cargill; Ford Motor Co.; Walmart; Stellantis (controlada pela família Agnelli, fundadora da Fiat); L’Oréal; Michelin; Samsung; Hyundai Motor; LG Group e BMW. O mesmo acontece no Brasil: JBS, Globo Comunicação e Participações, Itaú Unibanco, Cosan, Magazine Luiza, Grupo Votorantim, Companhia Siderúrgica Nacional, WEG, Gerdau e Suzano, entre outras, são exemplos de grandes corporações sob controle familiar.
Há também diversos exemplos que desmentem a validade universal da tese de que a empresa familiar tem vida curta. A Cargill é um dos casos mais eloquentes: fundada em 1865, a gigante do agronegócio ostenta mais de um século e meio de controle familiar. Outros exemplos globais de longevidade incluem a Ford Motor Co. (1903) e a BMW (1916), ambas com mais de cem anos de história.
Como devemos interpretar estes fatos? Obviamente, eles não significam que não há empresas familiares pequenas, ou que grande maioria delas não tenha vida curta. Eles indicam que o fato de a empresa ser familiar não é impedimento, por si só, ao crescimento e consolidação da empresa, como muitos economistas ainda acreditam. A empresa familiar não é uma forma rudimentar e transitória de uma sociedade anônima: ela é um tipo de empresa tão válido quanto uma sociedade anônima, e deve ser reconhecida como tal.
Na verdade, há várias vantagens associadas à empresa familiar, tais como maior prudência financeira que envolve aversão ao endividamento excessivo, mesmo que a expectativa de lucros seja favorável e menor rotatividade de mão de obra, com a preocupação em preservar talentos na empresa mesmo em momentos de crise. Isso porque, de uma forma geral, a empresa familiar se preocupa com o longo prazo, enquanto executivos de empresas com capital diluído se concentram em ganhos de curto prazo para pagar dividendos aos acionistas e obter bonificações por desempenho. Muitas vezes, o que confere ganhos no curto prazo se revela uma escolha estratégica desastrosa no longo prazo.
Por que, então, tantas empresas familiares fracassam? Em primeiro lugar, pela falha em harmonizar a governança profissional com as diretrizes da família controladora. Contudo, o grande vilão costuma ser a postura da família em tratar a firma como mera 'fonte de renda'. Esse comportamento rentista que drena a capacidade de reinvestimento da empresa é mortal. Sem crescimento, as profecias sombrias sobre a fragilidade da empresa familiar acabam por se concretizar.
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