Edição: sábado, 29 de agosto de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

Japão, China e o Mercado de Títulos Norte-Americano

Tenho destacado em artigos recentes que a arquitetura comercial e financeira internacional tem sido desmontada. Neste artigo, chamo a atenção para os efeitos desse processo sobre a relação financeira entre Estados Unidos, Japão e China. Essa parceria vinha sustentando o mercado de títulos públicos norte-americano há aproximadamente três décadas, de tal forma que, mesmo com enormes déficits fiscais, o governo dos EUA não tinha dificuldade para vender seus títulos mesmo os de prazo mais longo e financiar seus gastos.

Mas, antes de explicar esta relação e a sua importância, é preciso considerar o que está acontecendo no mercado de títulos públicos federais dos Estados Unidos. Enquanto neste mês os títulos do governo federal de curto prazo apresentam rendimentos com pequena queda, algo em torno de 3,81% para os títulos de 3 meses e de aproximadamente 4,23% para os títulos de 2 anos; os títulos de longo prazo estão oferecendo rendimentos muito elevados: no caso dos títulos de 30 anos tendo alcançado 5,28%, o maior nível em 20 anos.

Aqui é preciso um esclarecimento: o valor dos pagamentos prometidos pelo título (ou cupom) é fixo, seu preço de venda é que varia com a demanda. Assim, se o preço a que o governo norte-americano consegue vender o título cai, a taxa de rendimento efetiva sobre o valor aplicado aumenta; já se o preço aumenta, a taxa de rendimento se reduz: o preço do título e sua taxa de rendimento variam inversamente. Desta forma, o que está acontecendo é que, juntamente com um ligeiro aumento na demanda por títulos de curto prazo, a demanda por títulos federais do governo norte-americano de longo prazo está caindo significativamente.

A forte desvalorização dos títulos federais norte-americanos de longo prazo levou o Tesouro dos Estados Unidos a retomar e expandir a recompra regular de papéis mais antigos, uma prática não utilizada há mais de 20 anos. O objetivo principal é injetar liquidez no mercado e aliviar os balanços dos grandes bancos, evitando uma volatilidade ainda mais desordenada nos preços. A queda contínua no valor desses ativos corrói o patrimônio dos detentores de dívida pública, reduzindo sua capacidade de oferecer garantias em operações de crédito e, no limite, comprometendo a solvência de instituições expostas a esses papéis.

A queda nos títulos de longo prazo da dívida americana resulta do peso do déficit fiscal recorde e das expectativas inflacionárias dos EUA. Mas o catalisador específico é estrutural: a redução sistemática na demanda por parte de Japão e China, que por décadas sustentaram esses ativos em suas reservas internacionais e hoje cortam suas posições de longo prazo.

Segundo dados do Tesouro dos Estados Unidos, o volume de títulos do governo norte-americano que a China mantém se reduziu para 633,4 bilhões de dólares, o menor nível em 17 anos valor 50% menor do que o pico de 1,32 trilhão em 2013. Em vez de promover vendas maciças de papéis, a estratégia chinesa tem sido a de deixar os títulos vencerem, sem adquirir novos lotes. Isso faz parte de uma estratégia mais ampla de diversificar as reservas internacionais chinesas, inclusive com o aumento do seu estoque de ouro.

No caso do Japão, suas reservas em títulos norte-americanos se reduziram de 14% a 15% (180 a 200 bilhões de dólares) em relação ao pico de 1,33 trilhão de 2021, embora o país ainda seja o maior detentor estrangeiro da dívida soberana dos Estados Unidos (em torno de 1,11 trilhão atualmente). Ao contrário da China, o Japão vendeu ativamente títulos norte-americanos para comprar ienes e sustentar o valor da moeda nacional. Investidores institucionais japoneses também vêm reduzindo suas posições em títulos norte-americanos, para investir em papéis domésticos, impulsionados pela alta na taxa de juros promovida pelo Banco do Japão visando a combater a inflação.

Mas o que a redução na demanda do Japão e da China por títulos do governo norte-americano traz de novo? Ocorre que os dois países concentravam sua demanda em títulos de longo prazo como reserva internacional, independentemente do seu rendimento. Isso garantia um fluxo de recursos estável e barato para o governo norte-americano financiar seus gastos, sustentando a demanda por produtos importados vindos, em grande medida, de empresas chinesas e japonesas , o que realimentava continuamente o ciclo, há décadas.

Estamos chegando agora ao epílogo da ciranda mais lucrativa e duradoura da globalização moderna. A engrenagem que, por décadas, amarrou o destino dos Estados Unidos, do Japão e da China unindo o apetite de gasto público e consumo norte-americano às cadeias globais de valor na China alimentadas, em grande parte, pelo capital japonês à taxa de juros zero esgotou suas forças. Não estamos diante de uma mera crise cíclica, mas do fim de uma era.

Edição: sábado, 29 de agosto de 2026

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