COLUNISTA
O conhecimento tecnológico é um bem complexo para os economistas. Em primeiro lugar, ao contrário da maioria dos bens, ele tem como característica o consumo não rival. O que isso significa? A grande maioria dos bens na economia é rival no consumo: o uso de um bem por uma pessoa reduz a sua disponibilidade para quem mais quiser consumi-lo. Se eu compro um par de sapatos, por exemplo, isso significa um par a menos disponível no mercado para quem quiser usar aquele mesmo modelo.
Com o conhecimento tecnológico, a lógica é diferente: conhecer a fórmula para a fabricação de um material de alta resistência ou o projeto de um microcircuito não reduz a disponibilidade desse conhecimento para terceiros que tenham interesse nele. Por isso, o conhecimento tecnológico possui um consumo não rival.
O problema é que, como qualquer um pode utilizar o conhecimento sem pagar por ele, a teoria econômica convencional aponta que não haveria incentivo para inovar, pois o criador não seria remunerado pelas novas tecnologias. A solução são as patentes: um direito temporário que exige que os interessados na tecnologia licenciem seu uso e paguem os direitos (chamados royalties) ao proprietário. Isso estimula o avanço tecnológico contínuo, com a produção de novas tecnologias. Ao mesmo tempo, torna o conhecimento público e acessível após o prazo legal, evitando que ele seja mantido sob segredo industrial, o que provavelmente aconteceria se não houvesse patentes. Dessa forma, desde que as patentes sejam temporárias, em alguma medida todos ganham.
Como explicar então a chamada “guerra tecnológica” entre Estados Unidos e China? Essa guerra tecnológica é o rótulo atribuído à disputa entre os dois países por tecnologias de ponta: semicondutores avançados, inteligência artificial, redes 5G/6G, computação quântica, minerais críticos e veículos elétricos. As motivações dessa disputa envolvem o fato de que muitas destas tecnologias têm uso tanto civil como militar, além de assegurarem a liderança da indústria global. Essa liderança se dá pela posse de indústrias de ponta, que não estão sujeitas à concorrência intensa e, assim, podem cobrar preços mais elevados por seus produtos, obtendo maiores lucros, pagando maiores salários e gerando renda elevada para os países que abrigam tais atividades.
Esta guerra apresentou seus primeiros movimentos entre 2017 e 2018, quando os Estados Unidos aprovaram legislações para restringir o investimento chinês em empresas de tecnologia de ponta em solo norte-americano. Em maio de 2019, o governo norte-americano limitou o acesso da fabricante chinesa Huawei a softwares e componentes de origem americana. Desde então, mais empresas chinesas entraram na lista negra dos EUA, fornecedores de terceiros países foram proibidos de vender produtos avançados para a China e Pequim retaliou com restrições à exportação de minerais críticos, como terras raras. A disputa se globalizou: a União Europeia adotou tarifas sobre carros elétricos chineses e, hoje, a guerra tecnológica se estende a áreas como biotecnologia, computação quântica e o controle das telecomunicações submarinas e espaciais.
Como foi visto no início deste artigo, a guerra tecnológica seria um comportamento irracional do ponto de vista da teoria econômica convencional. Mas para entender essa disputa, é preciso recorrer ao campo da Economia Política Internacional, que, ao contrário da ortodoxia econômica, reconhece que a política e o poder são parte integrante das relações econômicas entre as nações.
Para compreender a lógica e a importância da guerra tecnológica, vale considerar as ideias de Susan Strange (1923-1998), teórica fundamental da Economia Política Internacional, sobre o poder estrutural a capacidade de determinar as regras globais do jogo econômico e político. Ao dominar as estruturas de conhecimento e de produção, assim como as estruturas que definem a segurança e a oferta de crédito globais, um Estado condiciona a forma como as transações econômicas e políticas ocorrem no cenário mundial.
Dessa forma, o que está em jogo é a capacidade dos Estados Unidos e da China de controlar uma das quatro estruturas globais de poder: a estrutura do conhecimento e da tecnologia. O que está em disputa, mais do que simplesmente a vanguarda tecnológica, é uma das principais condições de hegemonia global.
Seria fundamental que os países em desenvolvimento atentassem para essa dinâmica, sobretudo pelos impactos diretos que essa guerra produz sobre suas próprias estratégias de modernização e desenvolvimento.
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