COLUNISTA
A corrente econômica ortodoxa, que prevalece na maior parte do ensino de economia mundo afora, trata as relações econômicas internacionais ou seja, as transações econômicas que acontecem entre países (por exemplo: exportações, importações, investimento estrangeiro, crédito internacional etc.) como se elas não envolvessem qualquer elemento político; portanto, como se apenas o cálculo dos benefícios e dos custos econômicos motivasse estas transações. Dito de outra forma, apenas o ganho econômico orientaria as decisões, sem nenhuma consideração sobre os efeitos destas transações no poder político dos países envolvidos.
Este artifício de isolar as relações econômicas da política pode ser defendido do ponto de vista didático, como forma de concentrar inicialmente o foco de estudo sobre as suas especificidades econômicas. O problema é que aquilo que deveria ser apenas um recurso didático preliminar, com o intuito de facilitar a compreensão da dimensão econômica, passa a ser uma questão de princípio: não apenas os economistas de formação ortodoxa se recusam a aprofundar a análise e entender como a política é incorporada às relações econômicas internacionais e interage com o cálculo econômico, como também passam a afirmar que qualquer elemento político é nocivo para o funcionamento da economia internacional.
Isto talvez pareça equivocado para o leitor que não é economista, e realmente é. Não é possível separar o cálculo econômico do cálculo político, como se fossem dois universos paralelos, cujo contato provoca distúrbios e transtornos, da mesma forma que nos filmes de Hollywood. Política e economia estão sempre juntas no mundo real, especialmente quando se trata de relações econômicas internacionais. Governos buscam favorecer suas empresas nacionais na economia global, estimulando seu crescimento, e as empresas buscam a ajuda dos governos para obter mercados e triunfar sobre seus concorrentes. Longe de ser um campo nivelado, o mercado mundial é constantemente “desnivelado” por governos e empresas lutando para conseguir vantagens.
Dessa forma, é de se destacar o artigo assinado pelo prof. Paul Krugman, agraciado com o Nobel de Economia de 2008, e publicado na plataforma Substack em 6 de setembro ( https://paulkrugman.substack.com/p/weaponized-interdependence ). No texto, ele aborda o fenômeno conhecido como interdependência armada (weaponized interdependence em inglês), conceito formulado pelos cientistas políticos Henry Farrell e Abraham Newman para explicar como redes globais de comércio, finanças e informação vêm sendo utilizadas pelos Estados como instrumentos de pressão política e de exercício de poder no cenário internacional.
Com efeito, os casos de manipulação dessas redes com objetivos políticos têm sido frequentes. Apenas para citar dois exemplos de destaque, vimos o Tesouro dos Estados Unidos excluir bancos iranianos e russos do sistema SWIFT de pagamentos internacionais, e aplicar a chamada Regra de Produto Direto Externo para proibir qualquer fábrica no mundo que utilize equipamentos ou softwares de origem norte-americana de vender microcircuitos avançados para a empresa chinesa Huawei.
Como esse movimento gera reações dos países que têm suas empresas afetadas tanto pela constituição de redes alternativas para fugir dos sistemas sob controle dos Estados Unidos quanto pela adoção de tarifas retaliatórias , Krugman argumenta que a consequência é a perda da eficiência que resulta do uso de redes únicas e da liberdade no comércio e nas finanças globais.
Ocorre que essa aparente perda de eficiência só acontece em comparação com um mundo irreal, no qual as empresas que atuam na economia global são pequenas e as redes não possuem etapas críticas que comandam todo o restante da estrutura. Na realidade global, as corporações que lideram o comércio dos produtos mais importantes são poucas e de grande porte, com poder de mercado para influenciar preços e quantidades produzidas; além disso, as redes comerciais, financeiras e de comunicação possuem pontos críticos (o que Farrell e Newman chamam de “gargalos”) que controlam o acesso de quem as utiliza.
A questão toda se resume ao fato de que as redes globais são centralizadas, o que juntamente com o fato de que as empresas que comandam o comércio global dos produtos mais importantes são grandes e possuem poder de mercado para afetar preços e produção confere um poder político e econômico muito grande aos países que controlarem as etapas críticas dessas cadeias e às empresas que dominarem os mercados. Nesse contexto, as motivações do cálculo econômico do custo e do benefício e do poder político caminham juntas.
Não se trata de dois universos paralelos que eventualmente colidem, mas de duas forças que, se bem administradas, se reforçam mutuamente.
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