COLUNISTA
Um fenômeno vem chamando a atenção daqueles que estudam a economia global: a elevação do custo da dívida de longo prazo dos países desenvolvidos, especialmente Estados Unidos, Alemanha e Japão. Os títulos dos Estados Unidos de 30 anos alcançaram 5,3% de rendimento, um recorde de 19 anos. Os títulos alemães de 10 anos atingiram 3,26%, um recorde de 15 anos, e os títulos de 10 anos do Japão alcançaram 3,0%, um recorde de 30 anos (neste caso, porque os juros no Japão passaram por um período muito longo em patamares extremamente baixos). O custo da dívida pública de curto prazo nestes países também aumentou, ainda que não de forma tão dramática.
Esta elevação generalizada no custo das dívidas públicas dos países tem efeitos muito importantes. Em primeiro lugar, a elevação dos rendimentos dos títulos torna mais caras para estes governos tanto a emissão de novos títulos quanto a rolagem dos títulos antigos, aumentando o seu déficit. Para se ter uma ideia da magnitude que o problema pode atingir, os Estados Unidos pagam US$ 1 trilhão de juros, o que equivale a 3,2% do seu Produto Interno Bruto (PIB a soma de todos os bens e serviços produzidos pela economia em um ano) e a 14% a 18% das despesas do governo federal.
Em segundo lugar, como os rendimentos dos títulos apresentam o menor nível de risco, eles estabelecem o piso da taxa de juros, pois as demais aplicações apresentam riscos mais elevados e, quanto maior o risco, maior a taxa de juros. Ao se elevarem, eles aumentam as demais taxas de juros e, assim, o custo do capital para as empresas, o que reduz os investimentos privados.
Uma elevação tão rápida em diferentes países desenvolvidos não é comum. O que está acontecendo? Várias explicações têm surgido na imprensa. Algumas delas não são satisfatórias por serem parciais. Uma delas é a tendência de elevação do déficit público (a diferença entre as receitas e os gastos públicos) projetada para os Estados Unidos. Esta é uma explicação possível para o caso norte-americano, mas não explica o movimento simultâneo em outros países. Da mesma forma, a afirmação de que o aumento dos rendimentos se deve ao fato de que a China e o Japão não vêm mais adquirindo títulos norte-americanos também se aplica aos Estados Unidos, mas não justifica a elevação generalizada.
Outra explicação recorrente é o nível muito elevado da dívida pública nos países desenvolvidos. Isto é um fato. A dívida em poder do público nos Estados Unidos está em torno de 102% do PIB, muito próxima do seu recorde histórico de 106% em 1946, ao final da Segunda Guerra Mundial, impulsionada pelos gastos militares. No Japão, supera os 200% do PIB. Contudo, na Alemanha, a razão entre dívida e PIB é de 63,5%, bem menor do que o pico de 81% registrado em 2010. Além disso, 63,5% estão muito próximos da meta fiscal de referência da União Europeia, que é de 60%. Isso não justifica que os investidores internacionais tenham a mesma desconfiança em relação à Alemanha do que em relação aos Estados Unidos e ao Japão.
Por que esta desconfiança generalizada? Para entender o que está acontecendo, temos de considerar o momento em que os juros destes títulos começaram a subir momento que pode ser definido com precisão a partir do início da atual Guerra no Golfo ou Guerra do Irã, em fevereiro deste ano. Isso tem levado alguns especialistas a explicar o movimento das taxas dos títulos de longo prazo como resultado de expectativas de inflação mais elevada no futuro, impulsionadas pelo aumento no custo do petróleo e seus derivados. Faz sentido: como os investidores esperam uma inflação futura mais alta devido à alta das commodities energéticas, estão exigindo maiores rendimentos hoje para adquirir estes títulos de longo prazo.
Mas isto é apenas parte da história e uma parte pequena. A Guerra no Golfo colocou em xeque um gargalo importante para o comércio internacional: as rotas que passam pelo Golfo Pérsico. O conflito mostrou que essas rotas estão sujeitas às disputas políticas que estão se desenhando entre os Estados Unidos e seus aliados, por um lado, e a China e seus aliados, por outro. Ocorre que essas rotas são essenciais para o funcionamento das cadeias globais de produção centradas na Ásia (e não apenas para o transporte de petróleo). Essas cadeias são a forma como a economia mundial se reorganizou desde os anos 1990, substituindo a produção industrial de cada país pela produção distribuída pela Ásia, com ênfase na China.
Portanto, a Guerra no Golfo Pérsico colocou em dúvida a viabilidade da estrutura global de produção, o que está levando os investidores internacionais a fugirem de investimentos de longo prazo e a buscarem alternativas mais imediatas para reduzirem seu risco. John Maynard Keynes (1883-1946), um dos economistas mais importantes da história, denominou essa fuga de investimentos de longo prazo e a retenção de dinheiro de 'aumento da preferência pela liquidez'. Este aumento da preferência pela liquidez reduz não apenas a demanda por títulos públicos de longo prazo, mas também diminui a liquidez internacional isto é, a disponibilidade global de capital , afetando diretamente a economia dos países.
Assim, a alta generalizada nos juros das dívidas públicas é muito mais do que um sintoma de inflação passageira provocada pelo choque do petróleo: é o preço financeiro cobrado pela incerteza que agora paira sobre a própria globalização.
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