COLUNISTA
A Economia Digital redefiniu o que significa ter poder de mercado, trazendo consequências graves que o debate público ainda custa a assimilar. Enfrentar esse cenário exige ir além dos conceitos tradicionais, criados para uma economia de fábricas e não de dados.
A chamada Economia Digital há anos vem ocupando grande espaço na mídia. O termo abrange a produção, a distribuição e o consumo de bens e serviços que empregam, de forma central, tecnologias de informação e comunicação, redes e processamento de dados. Trata-se de um ecossistema que engloba desde a infraestrutura básica como redes de telecomunicações, computação em nuvem e data centers até plataformas e serviços como o comércio eletrônico (e-commerce), marketplaces, fintechs e streaming, impulsionados por Inteligência Artificial (IA), Big Data, automação e Internet das Coisas (IoT, a integração de máquinas e aparelhos pela internet, com coleta de dados, inteligência de processamento e autonomia operacional).
Muitas vezes, a Economia Digital é apresentada como a promessa de um futuro brilhante; outras como no caso da Inteligência Artificial , como uma ameaça aos empregos ou até à própria humanidade. Contudo, pouca atenção tem sido dada ao modo como ela altera radicalmente o poder de mercado na economia moderna. Para os economistas, uma empresa possui poder de mercado quando consegue fixar os próprios preços e condições de venda para elevar seus lucros sem o risco de perder seus clientes para a concorrência.
Por exemplo, uma fábrica de calçados não pode simplesmente elevar seus preços sem perder clientes para a concorrência. Da mesma forma, um fornecedor de massa de pão não pode piorar suas condições de pagamento sem que as padarias passem a comprar de outros distribuidores. Esse movimento de troca por parte dos clientes o chamado efeito substituição é tanto mais fraco quanto menor for a concorrência no setor. Assim, quanto menos rivais uma empresa enfrenta, maior é a sua liberdade para fixar preços e ditar regras para aumentar seus lucros. Em outras palavras, maior é o seu poder de mercado.
Na linguagem dos economistas, a economia digital diz respeito a atividades em que a informação na forma de dados é um fator de produção (ou seja, um recurso utilizado na produção) fundamental, além do capital (na forma de máquinas, equipamentos e instalações) e trabalho. Mas dados são um fator de produção peculiar, que permite às empresas dominantes alcançar um nível de poder de mercado inimaginável, quando comparado ao poder de mercado de uma empresa em um setor tradicional.
Em primeiro lugar, os dados são gerados e circulam em redes e as redes apresentam um efeito crucial: quanto mais participantes elas têm, maior é o seu valor. Para ilustrar, basta pensar nas redes sociais: quanto maior o número de usuários, mais atraente a plataforma se torna para quem deseja ingressar nela, pois maiores são as chances de encontrar contatos e conteúdos de interesse.
Isso faz com que as redes bem-sucedidas tendam a empurrar os concorrentes para nichos irrelevantes o chamado market tipping (o “tombamento do mercado”). Desta forma, a concorrência pelo mercado substitui a concorrência no mercado: a disputa deixa de ser entre várias empresas convivendo e passa a ser uma corrida para ver quem atinge primeiro o ponto de não retorno em que o mercado tombará a seu favor. Alcançado esse limiar, a plataforma vencedora passa a dominar praticamente a totalidade do setor.
Outra fonte de poder de mercado é o chamado ciclo dos dados (também chamado de bola de neve algorítmica). Pense em uma plataforma de intermediação que reúna compradores e vendedores. Quanto mais usuários uma plataforma atrai, mais dados ela coleta. Com mais dados, ela treina algoritmos melhores, personaliza serviços e prevê comportamentos com maior precisão. Esse produto mais eficiente atrai ainda mais usuários, tornando quase intransponível a entrada no mercado para novos concorrentes, que iniciam suas atividades sem dados.
Por último, as empresas digitais operam com estruturas de custo peculiares: gastam somas milionárias para desenvolver um aplicativo ou plataforma, mas, depois de pronto, o custo de atender um cliente a mais (como disponibilizar mais um download) é praticamente zero. Para diluir esse investimento inicial gigantesco, a empresa precisa de uma base massiva de clientes. Isso significa que a escala é a chave do negócio o que dá uma vantagem avassaladora para as empresas que já lideram o setor.
Essa dominância é reforçada por estratégias como o subsídio cruzado, em que um lado do mercado paga pela gratuidade do outro. É o que ocorre em plataformas de busca e marketplaces, onde os consumidores utilizam o serviço sem pagar taxas, enquanto a receita do negócio vem dos vendedores e anunciantes. Essa dinâmica esconde o verdadeiro poder de mercado da empresa, já que as medidas tradicionais deste poder baseadas no aumento direto de preços ao consumidor perdem a validade quando o serviço é oferecido de graça.
Em suma, o poder na economia digital não se mede mais pela capacidade de uma empresa de fixar preços, mas pelo domínio sobre dados, redes e ecossistemas inteiros. Enquanto o debate continuar preso aos velhos paradigmas da era industrial, assistiremos passivamente à consolidação de monopólios digitais quase inabaláveis. O futuro da concorrência dependerá da nossa capacidade de enxergar além da superfície e entender as novas regras desse jogo.
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