Edição: sábado, 10 de outubro de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

O Que Significa a Volta da Preferência pela Liquidez

Ronaldo Fiani

Chamei a atenção em um artigo anterior para a alta dos rendimentos nos juros dos títulos públicos dos países desenvolvidos, especialmente Estados Unidos, Alemanha e Japão. A mecânica desta alta é simples: a remuneração dos títulos (os seus rendimentos) é um montante fixo, enquanto o valor dos títulos é determinado pela demanda dos aplicadores. Assim, quando a demanda aumenta, o valor do título aumenta, e o rendimento como proporção do valor do título se reduz. Já quando a demanda diminui, o valor do título diminui, e o rendimento como proporção do valor do título se eleva.

Já chamei a atenção em outro artigo para a expressiva elevação do custo da dívida de longo prazo dos países desenvolvidos, especialmente Estados Unidos, Alemanha e Japão (O Aumento no Custo da Dívida de Longo Prazo e a Volta da Preferência pela Liquidez, sábado, 19 de setembro de 2026). Os títulos de 30 anos dos Estados Unidos alcançaram máximas de duas décadas, atingindo a marca de 5,61% de rendimento. Os títulos alemães de 10 anos avançaram para a faixa dos 3,45%, os maiores patamares em 15 anos, enquanto os títulos de 10 anos do Japão superaram 3,10%, alcançando o maior nível em 30 anos (resultado do abandono definitivo da política de juros extremamente baixos e do aumento do endividamento público). O custo da dívida pública de curto prazo nesses países também permanece em níveis elevados, impulsionado pela persistência das taxas básicas praticadas pelos bancos centrais.

Esta alta dos rendimentos dos títulos, além de tornar mais cara para estes governos a emissão de novos títulos e a rolagem dos títulos antigos, aumentando o seu déficit (para se ter uma ideia, os Estados Unidos pagam US$ 1 trilhão de juros, o que equivale a 3,2% do seu Produto Interno Bruto ou PIB a soma de todos os bens e serviços produzidos pela economia em um ano e a 14% a 18% das despesas do governo federal), produz uma elevação em cascata de todas as demais taxas de juros da economia destes países, pois estes títulos apresentam o menor nível de risco. Portanto, todas as demais aplicações apresentam riscos mais elevados e, quanto maior o risco, maior a taxa de juros. Ao se elevarem, esses rendimentos encarecem o custo do capital para as empresas e o custo do financiamento para as famílias, o que reduz os investimentos privados e o consumo.

Mostrei no artigo anterior que várias explicações que circulam na mídia não são satisfatórias, sobretudo por serem parciais. Uma delas é a tendência de elevação do déficit público projetada para os Estados Unidos, o que não explica o movimento simultâneo em outros países que têm endividamento mais baixo, como a Alemanha. Da mesma forma, a afirmação de que o aumento dos rendimentos decorre do fato de que a China e o Japão reduziram as compras de títulos norte-americanos é um argumento restrito aos Estados Unidos, incapaz de justificar a redução generalizada no apetite dos investidores por papéis soberanos.

Alguns especialistas têm explicado o movimento das taxas dos títulos de longo prazo como resultado de expectativas de inflação mais elevada no futuro, impulsionadas pelo aumento no custo do petróleo e seus derivados. Faz sentido: como os investidores esperam uma inflação futura mais alta devido à alta das commodities energéticas, estão exigindo maiores rendimentos hoje para adquirir esses títulos de longo prazo. Mas, como escrevi anteriormente, isto é apenas parte da história e uma parte pequena. A Guerra no Golfo Pérsico colocou em dúvida a viabilidade da estrutura global de produção, o que está levando os investidores internacionais a fugirem de investimentos de longo prazo e a buscarem alternativas mais imediatas para reduzirem seus riscos.

Como afirmei no artigo anterior, momentos de grave incerteza como o que estamos vivendo têm como efeito elevar muito a preferência pela liquidez, conceito formulado pelo economista John Maynard Keynes (1883-1946). Segundo Keynes, quando a incerteza se torna muito elevada, os detentores de riqueza correm para ativos mais líquidos, ou seja, retêm seu dinheiro e evitam ficar presos a aplicações de longo prazo (como os títulos públicos de maior prazo de vencimento) ou a ativos mais difíceis de vender rapidamente sem sofrer perdas, como imóveis e máquinas. A razão disso é simples: em momentos de grave incerteza, o dinheiro confere a flexibilidade necessária para fazer face a imprevistos.

Mas um aumento significativo da preferência pela liquidez tem outras consequências bastante negativas para a economia. Como há uma maior resistência dos detentores de riqueza a renunciar à liquidez que o dinheiro oferece, as taxas de juros sobem (pela menor disposição de ofertar crédito no mercado), o que desestimula o investimento e o consumo, reduzindo a atividade econômica, com efeitos recessivos que podem ter um alcance global.

Mas há outro fator que está por trás do agravamento da preferência pela liquidez, como mostrou outro economista, Hyman Minsky (1919-1996). Segundo Minsky, quando os fluxos de caixa das empresas não dão mais conta dos compromissos financeiros que elas têm de honrar, muitas vezes elas passam a se desfazer de seus ativos rapidamente, mesmo sofrendo perdas significativas, para tentar cumprir suas obrigações. Esse é outro mecanismo que dispara a preferência pela liquidez e provoca uma deflação nos preços dos ativos, destruindo lucros e patrimônios, o que pode desencadear uma crise financeira generalizada.

O mercado global de títulos já deu o seu alerta; cabe agora aos governos e bancos centrais agir antes que o sinal de perigo se transforme em crise aberta.

Edição: sábado, 10 de outubro de 2026

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