Edição: sábado, 17 de outubro de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

Importando Chips, Exportando Ilusões

Ronaldo Fiani

Grande parte das análises econômicas veiculadas na mídia parte de uma premissa ultrapassada: a de que o mercado é formado por pequenas empresas competindo em igualdade de condições. Na realidade dos setores de tecnologia de ponta, a competição é muito mais feroz e assimétrica. Entrar nesses mercados exige mais do que altos investimentos iniciais; exige dominar um conhecimento tácito complexo e acompanhar um ritmo de inovação que poucas empresas conseguem replicar.

Nessa lógica, assume-se que a informação circula sem barreiras e que qualquer empresa pode acessar o conhecimento técnico existente. Trata-se de uma ilusão: as tecnologias de ponta não vêm em manuais de instrução. Saber projetar um microcircuito de 3 nanômetros ou treinar os algoritmos de uma inteligência artificial exige um aprendizado prático acumulado ao longo de anos. Isso também vale para a biotecnologia: passar da escala de laboratório para a produção industrial de vacinas, remédios e biocombustíveis em grandes biorreatores exige um "saber fazer" que dinheiro nenhum compra do dia para a noite.

Se essa teoria convencional estivesse correta, qualquer tentativa de uma empresa de ponta de subir seus preços para lucrar mais seria contida pela chegada imediata de novos rivais. A oferta aumentaria, os preços cairiam e as margens voltariam ao patamar mínimo. O mundo real, no entanto, funciona de outra forma: entrar em um setor de tecnologia avançada é um processo longo e complexo, permitindo que as empresas líderes dominem o mercado e obtenham lucros extraordinários. Por quê?

Uma das razões mais importantes foi apontada pelo físico-químico e filósofo húngaro-britânico Michael Polanyi (1891-1976), autor de A Dimensão Tácita, que revolucionou a forma como entendemos o conhecimento no século XX. De forma simplificada, Polanyi distinguiu dois tipos de conhecimento: o codificado e o tácito.

O conhecimento codificado é aquele que pode ser formalizado em textos, fórmulas, algoritmos e manuais ou seja, o saber que se aprende em livros. Já o conhecimento tácito é aquele que não pode ser totalmente traduzido em palavras ou equações, pois só é adquirido pela prática. É o caso de habilidades simples do dia a dia, como andar de bicicleta ou reconhecer o ponto de bala de um doce.

A questão central é que o conhecimento tácito desempenha um papel decisivo na produção de bens de alta complexidade. Ele atua como uma forte barreira à entrada de novos concorrentes, permitindo que as empresas estabelecidas cobrem preços acima dos custos e obtenham margens de lucro elevadas. Superar essa barreira leva tempo. Para dificultar ainda mais a imitação, esse conhecimento não reside em um único indivíduo o que permitiria a um concorrente obtê-lo simplesmente contratando esse funcionário , mas sim na dinâmica de cooperação e nas rotinas da própria empresa.

Eis alguns exemplos do conhecimento tácito essencial para as tecnologias mencionadas anteriormente. No caso dos microcircuitos, obter um alto percentual de chips sem defeito exige o domínio de detalhes como a calibragem de microvibrações, a pureza dos gases e o controle térmico. No escalonamento do biorreator, dar o salto do tubo de ensaio para a produção industrial envolve dinâmicas de fluidos e estresse celular que só se aprendem por tentativa e erro. Finalmente, embora arquiteturas e algoritmos de inteligência artificial sejam públicos, o treinamento eficiente de modelos com centenas de bilhões de parâmetros exige escolhas baseadas em intuição técnica.

Se é assim, como é possível competir? Buscar essa resposta é vital. Para a economia de um país, é fundamental participar dos setores de ponta, pois é neles que se concentram os maiores lucros e salários. Caso contrário, o país estará condenado a uma economia restrita a setores tradicionais com tecnologias simples, fáceis de operar e com pouco conhecimento tácito envolvido. São mercados que geram pouca renda, já que as empresas sofrem intensa competição devido à facilidade de entrada de novos concorrentes.

É possível competir, mas somente com inovação. A história dos negócios está repleta de líderes de mercado que foram atropeladas por novas tecnologias: a Remington no setor de máquinas de escrever, superada pelos computadores; a Kodak na fotografia, engolida pela digitalização das imagens; e a Nokia nos celulares, desbancada pela chegada dos smartphones. A inovação é o verdadeiro motor da competição. Para compreendê-la, no entanto, precisamos deixar de lado a visão irreal dos economistas convencionais.

Sem uma estratégia de aprendizado e inovação, continuaremos importando os chips do futuro e exportando apenas a ilusão de competitividade.

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