Edição: sábado, 24 de outubro de 2026

Ronaldo Fiani

COLUNISTA

Ronaldo Fiani

O Poder de Mercado Oculto nas Redes Digitais

Ronaldo Fiani

As redes digitais se tornaram um componente crucial da economia moderna. Não apenas elas transmitem informações essenciais ao seu funcionamento, mas também afetam diretamente a operação de setores fundamentais, como o financeiro. Bancos e demais instituições do setor realizam transferências e outras transações simplesmente como mensagens por redes digitais, não apenas em âmbito nacional, mas também internacionalmente.

Mas essa realidade não se limita ao setor financeiro. Contratos são firmados digitalmente em toda a cadeia do setor produtivo, enquanto boa parte do consumo ocorre em plataformas digitais que reúnem vários conteúdos e anúncios hospedados em servidores independentes ao redor do mundo. Tudo isso apenas para citar os exemplos mais óbvios. É impossível conceber a economia moderna sem as redes digitais.

Essa realidade mostra a importância de se considerar as características das redes digitais para compreender como elas afetam o funcionamento da economia moderna. Infelizmente, há uma concepção generalizada de que essas redes seriam fragmentadas isto é, que teriam um caráter anárquico e sem ordenamento hierárquico , gerando relações simétricas em que nenhum participante deteria mais poder do que os demais. Em outras palavras, de que as redes digitais seriam radicalmente igualitárias.

Caso essa crença fosse verdadeira, as redes não seriam fontes de poder de mercado. Já tive a oportunidade de discutir em outros artigos o conceito econômico de poder de mercado. Dizemos que uma empresa detém esse poder quando uma condição específica como ser de grande porte e dominar uma parcela expressiva das vendas permite-lhe elevar seus preços acima dos custos de produção e, com isso, obter margens de lucro maiores. De forma geral, quanto maior o poder de mercado, maior é a margem de lucro.

Portanto, na ausência de hierarquia nas redes digitais, a própria rede não geraria poder de mercado. Isso não significa que as empresas participantes não pudessem deter esse poder, mas sim que ele teria de derivar de outras fontes, e não da estrutura digital em si. Ocorre, contudo, que essa crença no caráter anárquico das redes é falsa: a própria arquitetura das redes digitais é uma fonte expressiva de poder de mercado, dependendo de como cada participante nela se posiciona.

A razão disso é que as redes apresentam uma estrutura ou, em termos mais precisos, uma topologia. Muitas vezes, essa arquitetura centraliza a troca de informações em poucos intermediários, destacando-se o modelo radial (ou hub and spoke), no qual um ponto central concentra e distribui dados para a periferia. A dinâmica funciona como uma roda de bicicleta: o sistema continua operando se um dos raios sofre algum problema, mas para completamente se o eixo central for comprometido.

Com isso, aquele que ocupa o centro do modelo radial possui um poder de mercado expressivo em relação aos agentes situados em pontos periféricos, que dependem do nó central para operar. Esse é o caso típico dos maiores bancos da City de Londres ou de Wall Street: a partir de sua posição privilegiada na rede, eles observam o fluxo de múltiplos mercados de forma simultânea, obtendo condições mais vantajosas e lucros mais elevados. A isso somam-se os expressivos ganhos de escala decorrentes do processamento concentrado de um grande volume de transações.

Outra fonte importante de poder de mercado decorre da dificuldade que os agentes periféricos enfrentam para contornar o centro. Muitas vezes, não há conexão direta entre duas pontas e o volume ou o valor das transações não justificam o alto investimento para conectá-las. Dessa forma, os participantes da periferia tornam-se cativos do nó central, que extrai vantagens econômicas dessa dependência.

Seja na economia analógica, seja na digital, a dinâmica fundamental permanece a mesma: a busca e a consolidação do poder de mercado.

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