Marcelus Fassano
Na semana passada vivi dois dias intensos e muito prazerosos, contribuindo, a convite do Serratec, para a produção técnica do Tech Summit no Sesc Quitandinha.
Foram dias cheios de conversas sobre inovação, futuro e, principalmente, sobre como a tecnologia está mudando a forma como a gente vive e trabalha.
E foi nesse clima de transformação que me veio uma curiosidade: se tantas áreas já estão sendo redesenhadas pela tecnologia, qual é o impacto real disso na gastronomia?
A mudança começa pela maneira como aprendemos a cozinhar, que hoje acontece de forma rápida e muito diferente do que era antes.
Nossos avós tinham o caderninho escrito à mão, aquelas receitas de família que atravessavam gerações, mas que muitas vezes se perdiam porque eram apenas anotações. Replicar pratos sem ver alguém fazendo é difícil. Na cozinha, um detalhe simples como a altura do fogo ou o corte do ingrediente muda completamente o resultado.
Eu aprendi e me interessei pela cozinha através de programas de televisão. Ana Maria Braga, Jamie Oliver e, depois, os realities, que mostravam uma comida de chef adaptada para o dia a dia.
Hoje, minhas filhas aprendem vendo vídeos de Instagram e TikTok que mostram uma receita inteira em segundos, com cortes rápidos, sons, textura, fumaça e cor.
É rápido, é envolvente e, principalmente, dá vontade de levantar e fazer igual.
E não vou mentir. Eu também adoro e meu Instagram está cheio de receitas salvas.
Essa mudança já é reflexo da tecnologia. Internet rápida, acesso imediato a qualquer conteúdo e pensar que há pouco tempo a gente usava internet discada ou simplesmente não tinha internet.
Mas isso é só o começo. Em muitos países, especialmente na Ásia e nos Estados Unidos, a inteligência artificial entrou na cozinha de um jeito que parece filme.
panelas robotizadas que mexem sozinhas e controlam temperatura
fornos que identificam o ponto do alimento sem intervenção humana
sensores que monitoram frescor e qualidade dos ingredientes
câmeras que observam desperdício e sugerem ajustes
sistemas que analisam textura, cor e aroma para garantir padronização
Em redes de fast-food na China, existem robôs que fritam, salteiam, trocam óleo, organizam a sequência de pedidos e até avisam quando um funcionário está prestes a errar.
E no Brasil?
Aqui a transformação também começou, ainda que de forma mais discreta, mas extremamente útil para quem vive o dia a dia de uma cozinha profissional.
sistemas que avisam quando um ingrediente está prestes a vencer
softwares que equilibram o ritmo entre salão e cozinha
ferramentas que reduzem desperdício de forma significativa
plataformas que calculam o custo exato de cada prato
Não temos robôs mexendo panela, mas já temos tecnologia trazendo ordem para um ambiente que sempre viveu na pressão.
E isso muda muita coisa. A cozinha continua sendo um dos lugares mais intensos de um restaurante. Calor, correria, decisões rápidas, equipe no limite.
E aí surge a grande pergunta. A tecnologia vai conseguir melhorar esse ambiente que é puro estresse?
Existem projetos testando sensores de fadiga, ergonomia e repetição de movimentos.
Nada emocional ainda, mas já é um começo.
A comunicação também mudou. A comanda gritada virou tela, o pedido chega claro e os erros diminuem.
A cozinha segue viva, quente e pulsante, mas com um pouco menos de caos.
Depois de dois dias de Tech Summit, ficou claro para mim que estamos entrando em uma nova fase.
A inteligência artificial já faz parte da rotina, mas a alma da gastronomia continua humana, e ainda temos muito para aprender com esse encontro.
E, no fim das contas, a pergunta que realmente importa é a seguinte:
Quando a rotina estiver nas mãos das máquinas, o que vai continuar sendo cem por cento humano dentro de um prato?
Veja também: