Marcelus Fassano
Existe uma pergunta silenciosa que acompanha boa parte das pessoas quando sentam à mesa hoje em dia: “Será que eu deveria estar comendo isso?”
Não é mais apenas sobre fome, prazer ou encontro. Comer virou um campo minado de informações, dietas, modismos, restrições, rótulos, alertas, culpas e arrependimentos. A gastronomia, que sempre foi território do afeto, da memória e da celebração, passou a dividir espaço com a dúvida.
Glúten ou sem glúten. Carne ou plant-based. Orgânico ou industrial. Calorias ou índice glicêmico. Sustentável ou ultraprocessado.
E no meio desse turbilhão, o que deveria ser simples, escolher um prato, virou quase um dilema moral.
O curioso é que, ao mesmo tempo em que nunca se falou tanto em saúde e bem-estar, nunca se viu tanta gente confusa sobre o que, de fato, significa comer bem.
A grande tendência gastronômica de 2026 não está em um ingrediente exótico, nem em uma técnica inovadora, nem em um tempero distante. Ela está em algo muito mais profundo e humano: as pessoas querem voltar a comer em paz.
Querem escolher sem culpa.
E essa confusão não é nova. Ela só muda de forma ao longo do tempo.
Em 2016, quando eu estava treinando para uma prova de Ironman, quase desmaiei em um longão de bike. Entendi ali que precisava de ajuda profissional e procurei um nutrólogo em Petrópolis. Fui achando que sairia de lá com uma dieta restritiva, dessas que a gente já imagina que vai passar fome. Foi exatamente o contrário. Comia o dia todo.
De três em três horas fazia uma pequena refeição, sempre com comida normal do dia a dia, sem nada mirabolante. O resultado foi impressionante: cheguei a 12% de gordura corporal e, aos 44 anos, conquistei algo que nunca tinha tido na vida, uma barriga negativa. Sem sofrimento. Sem neura. Sem terrorismo alimentar. Apenas orientação, equilíbrio e regularidade.
Hoje, dentro da minha própria casa, vejo um cenário bem diferente. Minhas filhas, lindas, super saudáveis e acompanhadas por nutricionistas, vivem uma rotina que às vezes parece um desafio enorme. Tudo é pesado. Absolutamente tudo. Virou até meme aqui em casa. Elas evitam comer fora porque não conseguem pesar a comida. Nesse nível de comprometimento. Funciona? Funciona. O resultado é visível.
Mas o processo é duro.
E isso mostra como os conselhos mudam, as abordagens mudam, as regras mudam, mas a essência continua a mesma: o corpo responde muito bem quando a alimentação é equilibrada, constante e baseada em comida de verdade.
O novo olhar da gastronomia passa por três pilares muito claros.
O primeiro é valor percebido. As pessoas não querem necessariamente pagar menos. Querem sentir que aquilo que estão pagando faz sentido: ingredientes melhores, preparo cuidadoso, sabor marcante e porções honestas. Comer bem deixou de ser luxo e passou a ser critério.
O segundo é saúde sem extremismo. Sai de cena a ditadura das dietas milagrosas e entram escolhas mais conscientes e possíveis. Mais vegetais, menos ultraprocessados, comida de verdade, ingredientes sazonais. Não como regra rígida, mas como direção.
O terceiro é consumo com propósito. Saber de onde vem o alimento, valorizar produtores locais, respeitar a sazonalidade e reduzir desperdícios deixou de ser discurso bonito para virar critério de escolha do consumidor.
Se você escolhe um prato bem feito, com bons ingredientes, preparado com cuidado, em um restaurante que respeita o produto e o cliente, você já está fazendo uma escolha gastronômica consciente. Culpa não deveria fazer parte da experiência à mesa.
Consciência, sim. Culpa, não.
Talvez a pergunta que precisamos fazer não seja mais “isso engorda?” ou “isso faz mal?”, mas sim:
Isso é bem feito? Isso é comida de verdade? Isso me faz bem, no corpo e no espírito?
A gastronomia caminha para um momento de maturidade. Menos modismo, mais essência. Menos radicalismo, mais equilíbrio. Menos culpa, mais prazer responsável.
Porque, no fim das contas, comer bem nunca foi sobre restrição. Sempre foi sobre escolha.
E escolher com consciência é infinitamente mais saudável do que escolher com medo.
Veja também: