Marcelus Fassano
Tem uma coisa que vem mudando de forma silenciosa nos restaurantes, e que com certeza você já deve ter percebido.
Antes mesmo da primeira garfada, a experiência já começou.
E não é só pela comida. É pelo que a envolve.
O prato, o peso na mão, o formato, a cor, a textura.
A forma como o alimento chega à mesa hoje está diferente.
Mais autoral. Mais pensado.
Como vou a muito bons restaurantes com frequência, comecei a notar um padrão.
Pratos, ramequins, cerâmicas, com identidade, fugindo do óbvio, com uma estética mais moderna, às vezes até desconstruída.
Pensei que, por serem restaurantes de alta gastronomia, que investem na estética e na relação com o cliente, aqueles pratos lindos fossem peças importadas. Ou, quem sabe, de algum grande fornecedor de um grande centro como São Paulo, algo exclusivo, difícil de acessar.
Curioso, comecei a perguntar para um e outro chef mais próximo e tive uma agradável surpresa.
As peças eram todas daqui, de Itaipava.
Fiquei feliz em saber e, claro, fui lá conferir.
A Casa Doce Itaipava fica bem na reta principal, em um ponto que hoje chama atenção de quem passa por ali.
A loja reúne exatamente esse tipo de cerâmica que eu vinha vendo nos restaurantes. Peças com personalidade, formatos menos óbvios, cores que valorizam o alimento sem competir com ele.
Fui super bem recebido pela Cissa e pelo Zé Paulo, proprietários da loja, e numa conversa despretensiosa veio a confirmação do que já parecia claro: boa parte dos restaurantes da região está buscando esse novo olhar.
E não só eles.
Muita gente tem levado isso para dentro de casa.
Receber amigos hoje também virou algo mais cuidado.
O cuidado com a mesa, com o mise en place, com a apresentação tudo ganhou outro nível.
E faz sentido.
A gastronomia evoluiu, e a forma de servir acompanhou.
Hoje, muitos chefs já pensam no prato antes mesmo da montagem final.
Escolhem a cerâmica como parte da criação. Não é suporte, é composição.
Outro dia, em um jantar no Zai, isso ficou ainda mais claro. Um salmão moderno com azeite trufado e um clássico risoto de camarão chegaram à mesa em peças completamente diferentes, pensadas para valorizar cada proposta. Não era só comida. Era construção de cena.
Aqui em casa também é assim. Quando cozinho algo mais elaborado, minhas filhas já colocam os pratos mais bonitos na mesa, aqueles especiais. Valoriza a comida. E, não sei se é impressão, mas parece que fica até mais gostosa.
E talvez seja aí que esteja a grande mudança.
A comida continua sendo protagonista, claro.
Mas o cenário onde ela é apresentada passou a fazer parte da história.
E, no fim das contas, a gente volta para o começo de tudo.
A gente come com os olhos.
E, ultimamente, eles têm sido muito bem servidos.
Veja também: