Marcelus Fassano
Nem todo restaurante de carne é só sobre carne. Alguns são sobre técnica, outros sobre fogo, e poucos conseguem juntar tudo isso e transformar em algo maior.
E foi exatamente essa transformação que ficou clara em duas experiências recentes que vivi no Fuego Marambaia, durante a semana de comemoração dos dois anos da casa. Momentos diferentes, mas que ajudam a entender bem o que está por trás do que eles fazem.
A primeira foi uma masterclass de churrasco com o assador Jean Rocha. Uma oportunidade para quem gosta de comer bem e, mais importante, de entender o que faz diferença no resultado.
A aula não aconteceu no restaurante, mas em um dos espaços da própria Casa Marambaia. O Pavilhão Marambaia, desenhado por Burle Marx, onde está o último painel criado por ele. Ao redor, montanhas, jardins, um lago e uma pequena cachoeira.
O cenário não é detalhe. Ele entra na experiência antes mesmo do fogo acender. Beleza, história, aquela expectativa boa no ar. Deve ter nome isso. Felicidade. E a gente já estava tomado por ela antes da primeira carne ir para a brasa.
Eram cerca de 30 pessoas. Um grupo atento, interessado, leve, acompanhando cada etapa.
Jean conduzia de forma natural, alternando explicação e prática, mostrando como cada fator influencia no resultado final. A diferença entre parrilla e churrasqueira, intensidade do fogo, tempo, ponto e faca.
A cada corte que saía, picanha, denver, chorizo, linguiça, prime rib suíno duroc, vinha acompanhado de um “hummm” automático de quem estava ali. Não precisava de comentário longo. Bastava provar.
De todas as carnes, para mim o ponto alto foi o dry aged. Não como tendência, mas como resultado de processo bem feito. Sabor mais profundo, textura diferente, um nível de entrega absurdo.
A tarde passou voando. Quando percebemos, o encontro já tinha chegado ao fim, mas ninguém queria ir embora.
A boa notícia é que era semana especial de aniversário do Fuego, e valia aproveitar melhor. Voltei dois dias depois, já em outro formato.
A comemoração dos dois anos levou a experiência para os jardins da Marambaia. Sai o ambiente concentrado da aula e entra uma operação aberta, com estações gastronômicas, fogo aceso o tempo todo, chope, vinho e música ao vivo.
O interessante aqui não é só o que está sendo servido, mas como as pessoas curtem o espaço. Mesas espalhadas, gente circulando, provando, conversando. Levar a experiência para fora do restaurante sem perder identidade não é simples, e ali isso acontece com consistência e cuidado na execução.
O Fuego não se resume à parrilla. Ele usa o fogo como base, a carne como meio e constrói algo maior em volta disso.
Você não sai falando só do que comeu. Sai falando de como foi.
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