Marcelus Fassano
Existe algo de especial quando uma refeição ultrapassa o sabor e se transforma em lembrança. É exatamente essa a proposta da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança, um dos movimentos gastronômicos mais charmosos do Brasil, que une alta gastronomia, identidade regional e colecionismo.
A dinâmica é simples e genial: ao pedir o prato participante da temporada, o cliente leva para casa um prato de cerâmica pintado à mão, exclusivo daquele restaurante e daquela receita. Uma experiência que transforma o almoço ou jantar em recordação permanente.
E Petrópolis, mais especificamente Itaipava, tem um representante de peso nesse cenário nacional. O Restaurante 2 Vales ficou em quarto lugar geral entre todos os restaurantes participantes do Brasil na última temporada da Boa Lembrança. Um feito enorme dentro de um circuito extremamente respeitado da gastronomia brasileira.
Confesso uma coisa: eu nunca gostei de chuchu. Ou melhor nunca tinha gostado até provar o novo prato criado pelos ousados Luiz Braga e Wellington para a temporada de inverno 2026.
Com o provocativo nome “Dá mais que chuchu na Serra”, o prato homenageia os 134 anos de Itaipava e mergulha diretamente em uma das expressões mais populares da cultura caipira brasileira. A frase nasceu justamente da abundância do chuchu nas regiões serranas, onde o vegetal, botanicamente uma fruta, cresce com facilidade, cobrindo cercas, plantações e quintais numa fartura que impressiona.
A expressão virou sinônimo de abundância. Mas o mais interessante é como o prato consegue brincar com isso de maneira sofisticada.
O chef escolheu um Osso Buco VPJ, daqueles que cozinham lentamente até a carne praticamente desmanchar, acompanhado de um gratin de chuchu inspirado na famosa receita de Claude Troisgros, que fez enorme sucesso no CT Boucherie, no Leblon.
Quando soube que era chuchu, dei uma torcida de nariz. Nunca fui fã. Mas como estou sempre aberto a novas experiências e a rever conceitos, aceitei o convite para experimentar o novo prato. Surpresa: adorei.
Muita gente, inclusive eu, sequer percebe que a base do gratin é o chuchu. O ingrediente ganha textura, cremosidade, profundidade e personalidade. Sai completamente do papel de acompanhamento sem graça para assumir protagonismo. Foi um daqueles pratos que me fizeram rever um preconceito gastronômico construído há décadas.
Talvez esse seja justamente o espírito da Boa Lembrança: criar experiências que ficam. Não apenas pelo sabor, mas pela história, pelo contexto e pela emoção envolvida em cada criação.
Então aproveite o feriado para passear pelo Vale do Cuiabá, curtir o Itaipava Wine & Jazz Festival, que acontece de 3 a 7 de junho no Bosque dos Vales, e conhecer esse polo gastronômico formado junto ao Restaurante 2 Vales.
Peça o prato. Abra um bom vinho. E aproveite também para conhecer Wellington, que provavelmente estará por lá com um sorriso no rosto e uma taça na mão para receber cada cliente como quem recebe amigos em casa.
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